sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Poesia rompendo fronteiras


Caros Amigos que frequentam o Vamos Cirandar

Não diria que são inúmeras ou incontáveis as intervenções (ou visitas) de leitores que vêm de países distantes, mas garanto que se apresentam de forma constante,  com bastante frequência.
E fico a me perguntar: essas pessoas entendem a minha língua? Seriam originárias deste nosso torrão natal e, por circunstâncias da vida, estão morando longe? Ou, quem sabe, é gente que quer lembrar ou aprimorar a língua portuguesa? Ou ainda : são "viajantes internéticos" que apenas vagueiam de blog em blog, sem maiores objetivos?

Como saber?

Por consideração a essas pessoas e a outras tantas mais, resolvi facilitar a comunicação entre nós.
Claro que, também por minha causa, achei por bem estender os horizontes desta Ciranda  e convidar mais leitores a "dançar" (ou cantar) conosco.
Nada mais conveniente que apelar para uma linguagem universal: o inglês...É uma tentativa, não posso prever se vai dar frutos. Quisera que sim!

Em parceria com um casal amigo ensaiarei uma publicação bilíngue certamente com alguns vazios, ou mesmo falhas, pois não será uma versão na íntegra - daremos preferência às poesias e a algumas frases esclarecedoras que venham facilitar o entendimento.

Transpor para além-fronteiras a sensibilidade, a experiência pessoal, a cosmovisão, a expressão poética de alguém, é algo difícil, diria até arriscado.
Se a comunicação e o entendimento da lírica, por si só,  já comportam dificuldades intrínsecas, imaginem o que acarreta a ousadia de querer romper as fronteiras da linguagem.

Eu não sei inglês...mas meus parceiros,  Marcos e Rosa,  sabem! Ela é professora desse idioma há mais de vinte anos. Marcos é translator e professor, e mais: ele também "arrisca" suas poesias. Ambos sabem onde pisam.
Vamos avançar para ver onde vai dar...
A primeira poesia fala do meu desejo de libertar a palavra:

Ideal
Mexer com a palavra.
Trazê-la à tona e deixá-la partir
como ave que voa em busca do degredo,
multiplicando espaço e tempo
entre a origem e o destino,
fazendo sucumbir pelo caminho
a dor, o fardo, o sonho, a esperança, o desatino.
 
Sugar do coração
a última gota de tristeza
e com ela vacinar o mundo.
 
Sentir dentro de si apenas o agora
...e sorrir.
Livrar-se do passado e do futuro,
acompanhar a dança que há de vir,
sem sufocá-la, tomando-a para si.
 
Ouvir a sinfonia cósmica
deixando-a correr por entre os dedos
a semear de luz o longe e o aqui.
 
Quisera libertar minha palavra
                              e vê-la sumir...sumir...sumir...   
 
 
 
 
 Ideal

Dinah Hoisel

Touch the word
Bring it forth and let it go
like a bird flying in its migration,
multiplying space and time
between origin and destination,
all along doing away
with pain, burden, dream, hope, folly.
Withdraw from the heart
its last drop of sadness
for with it vaccinate the world.

Feel inside only here and now
and ... smile
Get rid of past and future,
follow the steps of a dance yet to come,
caring not to choke it on the taking

Listen to the cosmic symphony
as it runs through the fingers
and sows its light hither and yonder.

Wish to free my word
and see it disappear ... disappear ... disappear ...

Marcos -AD Barros- Translator


Desejo que eu e meus amigos tenhamos alcançado o objetivo:Voar mais longe...e que VOCÊ nos acompanhe.


sábado, 10 de novembro de 2012

"...e o mundo merece lê-lo"


Na publicação passada falei de esperas e esperanças. Desejos, diante dos quais, pouco ou nada fiz para colaborar com suas realizações. Ainda assim, exigi...Uma natureza menos violenta, menos agressiva, embora sabendo que sua revolta tem plena razão de ser. Cobrei uma relação mais sociável, mais harmônica entre os humanos. Entre as esperanças: "...que os meus antigos leitores se organizem em bloco para exigir"...a minha volta! (Apenas uma brincadeirinha...).
Concluí que  "espero demais, em tempo e em volume".
Nesse compasso, às vezes, cai do céu o Inesperado. E enche todas as medidas! Foi assim:

Pois é. Estive lá.
Teatro Municipal de Ilhéus. 
Objetivo: Apreciar o espetáculo "...ou isso"



O alcance ultrapassou infinitamente  o resultado esperado... Uma viagem!
O guia foi ninguém menos que Manoel de Barros, o imenso poeta que recria o unoverso cotidiano. E os atores-bailarinos brincaram com os 'deslimites' das palavras, tirando-as do seu 'estado de dicionário', 'voando fora da asa', lembrando que ' a expressão reta não sonha'.
Um grito (dançado, cantado e recitado) contra o suposto predomínio da razão como  única  forma válida de conhecimento ( para explicar o mundo) e que faz do olhar um instrumento  criminoso, matador da sensibilidade, do sonho,das utopias e da lupa caçadora dos detalhes delicados do mundo que nos cerca.


[A bênção, meu querido poeta, que me convidou já há algum tempo a segui-lo na máxima:"O olho vê, a memória revê e a imaginação transvê...É preciso transver o mundo"] .


Os artistas em palco estavam muito mais próximos de nós do que daqueles admiráveis  corpos "perfeitos" das sílfides e bailarinos convencionais do dito balé clássico. Foi como se tivéssemos invadido um recinto de "dança de salão",onde qualquer limite corporal ia sendo ultrapassado a cada movimento inesperado e inédito. Como aquela dança sem som. Um silêncio provocador no qual a música, ou o texto, era criada em nossa própria imaginação. Ligando o coração e a mente compúnhamos uma sinfonia própria que acompanhava o delírio dos bailarinos. 


Eu diria que tal composição se moldava muito mais pelos sinais de pontuação que por notas ou palavras . Um interno desfilar de exclamações, interrogações, reticências silenciosas e criadoras, ou interjeições - Oh!...Céus!...Que é isso meu Deus!...Putz!...Uff!...Nossa!........E o sentimento ia-se deliciando, flutuando no uso do transporte interativo da música, da dança, do poema, onde  sequer faltou a presença de Cartola ( Autonomia - "É necessária uma nova abolição, pra trazer de volta a minha liberdade" - Divino!), de Maysa cantando "Manhã de Carnaval", presenças que calaram fundo na alma de uma platéia hipnotizada, em que até as crianças presentes silenciaram. Para explodirem em aplausos no final da performance de 1 hora e 20 minutos  ininterruptos.


Diria Manoel de Barros : As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis, elas querem ser vistas de azul...E quem tentar entender, só vai ver beleza.


O cotidiano se fez representar através de novos conceitos. E os "utensílios" surgem fascinantes: o "esticador de horizontes" , "o abridor de amanhecer" crias do poeta. Ou  o termômetro emperrado em 36 graus e meio, trazendo tranquilidade ao hipocondríaco, ou as inúmeras antigas lentes de óculos usados, guardadas em aquário desativado, lembrando as infinitas paisagens vistas outrora...Que sensação de plenitude o momento dos abraços demonstrativos do desvalor dos gestos convencionais. Plenitude  facilmente comprovada pelo nó preso na garganta e na lágrima não viajada pela face, mas em estado de suspensão.


Se somos tão somente "sistemas nervosos", como você quer ( e eu não acredito), esses "nervos" podem ser tangidos como cordas de emocionante violão e criam...Arte!


"...a importância  de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças,  nem barômetros...que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa  produza em nós."


"...Para que o mundo não vá escurecendo e o homem não vá cegando aos poucos, esquecido do sono...de sonhar".
                                                                                A. Veiga -  poeta paraense


Uma amiga (só podia ser!) exagerando na dose escreveu-me no facebook:
"...cadê o texto tão lindo que você leu pra mim???.......Cadê???? Eu quero! E o mundo merece lê-lo!!! ( e esperou que eu o colocasse nesta publicação)

Atendendo a ela aqui está, embora não seja Poesia, tema constante deste blog.
Contudo querida, quero lhe lembrar: o mundo não lê poesia! Daí que o círculo de divulgação é (quase) insignificante...

Termino dizendo que, quem não compareceu ao teatro, saiu perdendo!


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Esperar...ou desistir?


 Parece-me que tenho sido exigente demais...Espero uma onda incontrolável de inspiração...Espero um céu límpido e cintilante de estrelas em fulgor absoluto...Espero um tempo de glória em que as notícias venham trazendo um clarão aconchegante de bem-estar coletivo e universal...Espero que meus antigos leitores se organizem em bloco para exigir a volta deste encontro de palavras poéticas e utópicas...Espero o retorno de um sol nordestino que não machuque  e que distancie , aos poucos, a revolta das águas que pretendem afogar inocentes e culpadas gentes...
Espero demais, em tempo e em volume!  Por não conseguir arredar o pé de onde estou, vou estiolando  e desaparecendo...E  o que tenho esperado não chega nunca!
Mais uma vez andei lendo o que escrevi há tempos. Descobri  e reencontrei o tempo da fartura, os sete anos de fecundidade, os momentos de criação generosa nos quais me expressei sem pudor:
               
    A mi me gusta reler
                   o que  em momentos venturosos escrevi
 
Parece-me que suave maestro,
sábio, lúcido, engenhoso,
aproximou-se de mim,
expressou-se,
segredou-me melodias
...e ,confiante ,afastou-se.
 
Cabe-me a tarefa
de ouvir, elucidar, digerir,
viver, divulgar e expandir
o que me foi confiado.
 
Sincrônica orquestra
de harmonia inquietante,
mágico tecido translúcido
entremeado no cotidiano.
Nem longe, nem perto,
mas dentro do momento vivenciado
a cada instante.
 
Um tempo de coração aberto, mesmo que mais uma vez induzida em erro, tive coragem de sentir e escrever:

   Fora de alcance

Tenho vivido a bastante
para reconhecer o amor
quando ele chega
 
Nas nuvens, nebulosas,
na neblina do tempo
me enganei algumas vezes:
brilhos falsos, 
fantasias, 
Momentos em que
a solidão assumia a emoção
e tola, burra,  eu confundia
o que nem de longe 
era o amor que eu desejava.
 
É assim...nem só o corpo
tem exigências, tem anseios...
A alma é muito mais seletiva.
Alma - herdeira de Diógenes -
busca O Homem,
o ser humano de verdade.
Aquele em quem se pode confiar.
Aquele que traduz integridade.
Que faz a alma cantar.
Que tem inocência bastante
para fazer aflorar
a inocência da gente.
 
E a alma se faz cativa
de um amor para a eternidade
pois esse mundo difícil
 não se permite ser palco
para tão sublime raridade.
 
Consola-me a posição desconfiada do grande poeta RAINER MARIA RILKE.    Cheio de dúvidas, baseado em "talvez" e "quase", ele afirmou:

A comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.

Vamos esperar todos juntos?...ou desistir?