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domingo, 5 de dezembro de 2010

Historias que ouvi contar

Nenhuma seleção de historinhas é mais interessante que a Mitologia , a grega sobretudo.Vejamos que a moderna Psicologia não dispensa seus contributos para entender melhor a alma e o comportamento humanos.

Tenho muito gosto em reler "Dafne e Apolo" e suas desventuras. Dafne foi o primeiro amor de Apolo. Outros vieram depois, e muitos. Como aconteceu?


Tendo Apolo vencido Píton , a enorme serpente, e vaidoso disto, sentia-se senhor e dono do valor das armas que usou: arco e flecha. Daí que, nada satisfeito ao ver um garoto brincando com tais armas, reagiu:

"-Que tens a fazer com tais armas mortíferas, menino insolente?" E passou um grande pito naquele que, sendo filho de Vênus, não receberia a repreensão sem reação à altura:

"-Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as minhas podem ferir-te." E Cupido, pois era ele, o insolente, desferiu um golpe que marcou o deus com uma ferida incurável : a capacidade de amar, sem limite...
E mais, vingou-se ferindo, com seta de ponta feita com chumbo, uma belíssima garota, a ninfa Dafne pela qual Apolo se viu perdido de amores. Mas a seta malígna que feriu Dafne a tornou imune ao sentimento que devorava o coração do deus.

Muitas vezes o pai da ninfa esteve a implorar :"Filha, deves dar-me um genro, dar-me netos..."
Sob a influência da vingança do pequeno deus do Amor, a moça , temendo o casamento, implorava de volta:
"-Pai querido, concede-me esta graça! Faze com que eu não me case jamais!"
A contragosto o pai consentiu, mas prevendo um futuro nada promissor para a garota.
"-O teu próprio rosto é contrário a este voto."

Sem conhecimento do trágico vaticínio, Apolo amou-a e lutou para obtê-la... ele, oráculo de todo mundo, não foi capaz de prever o próprio infortúnio. Seguiu-a... ela fugiu a correr, mais rápida que o vento.
Ele suplicava: "-Para, filha de Peneu, não sou teu inimigo! Não fujas de mim como a ovelha foge do lobo!...É por amor que te persigo!...Sou o deus do canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais fatal que as minhas atravessou-me o coração e agora sofro de uma enfermidade que bálsamo algum pode curar!"

Quanto mais ela fugia mais encantado ele ficava...Assim voavam o deus e a virgem: ela com as asas do medo; ele com as asas do amor. Ele termina por alcançá-la. Ela em desespero invoca seu pai, o rio-deus:
"-Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me ou muda as minhas formas que me têm sido tão fatais!"
Algo extraordinário começou a acontecer mal ela acabou de proferir o seu apelo...(Extraordinário para os nossos conceitos atuais, mas não para uma época em que deuses manipulavam sem cerimônia tanto os sentimentos, os fatos, o tempo, a natureza e tudo que poderia ajudá-los em suas conquistas e vinganças!)...
Um torpor tomou conta do corpo de Dafne; uma leve casca passou a recobrir a sua pele, antes alva e macia; seus cabelos transformaram-se em folhas; seus braços, em galhos; seus pés fincaram-se no chão gerando raízes; seu rosto conservou, de antes, somente a beleza...agora uma viçosa planta, o loureiro, que nunca perde a graciosidade, nunca perde o verde!
Apolo abraçou-se aos galhos e tentou beijá-los...os galhos recuaram...

"-Já que não podes ser minha esposa, serás a minha planta preferida e com tuas folhas enfeitarei a minha lira e a minha aljava; e, quando os grandes conquistadores desfilarem à frente dos cortejos triunfais, serás usada como coroa para suas frontes! E tão eternamente jovem, como eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas não envelhecerão".

Inúmeros poetas se serviram e beberam na fonte deste amor desventurado. Eu, poeta-menor, não me furto a me deixar influenciar por ele, também. Ligo-o a outra historia que ouvi contar...

Alguém que, como Carolina, da janela analisava suas circunstâncias. Ela, que um dia tinha vivido uma experiência dionisíaca, agora se encantava e se emocionava com o sofrimento do casal mitológico acima enfocado. Como toda Carolina, também esta via o tempo passar, sem perceber que pouco adianta os olhos fundos, guardando a dor de todo este mundo...isto não vai nada mudar...bem aconselhou o poeta. Lá fora as rosas continuam nascendo, mil versos são cantados só para agradar, muitos continuam sambando...Que falta para que Carolina acorde? Uma tola! Vai que morrem as rosas, a festa acaba, e aí ?

A mim, restou-me a inspiração sobre a suspiração desse povo emotivo ao extremo.

Semear...cuidar...colher
na seara de Dionísio
(para ela, opção alternativa)
desejo de sentir-se viva
Verdade dos sentidos
Mentira da mente

De resto...espera?
Esperança?
Desistência?
Ânsia?
Dormência.

Um dia (...uma noite?)
um vulto
Só um vulto
Primeiro...último...único:
Apolo perseguindo o ideal
(da janela ela observa a cena
testemunha a luta desigual)
Busca infecunda
Inútil corrida de atletas
-Ideal, somente sombra-
Dafne, apenas alcançada
desfaz-se em planta
a sedutora face.
Da janela ela vê a fuga da donzela

Apolo,
verdade da alma
Deus da música,
do canto, da lira, da cura...
nas mãos, folhas de louro
prêmio de vitória...Sem glória,
posto que satisfatória.

Ela, à distância,
acalma sua loucura...
desejo de ventura...
e chora.


Maiores esclarecimentos melhor consultar "O Livro de Ouro da Mitologia" de Thomas Bulfinch e claro, o grande Chico Buarque.

Ps. Brasileiro é tão debochado que utiliza o digno e honroso vegetal como condimento para temperar feijão! ( Minha nossa!)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A ANGÚSTIA


A ANGÚSTIA de D. DINAH

Que terrível acontecimento se fez REAL, na madrugada de hoje? Seja lá o que tenha sido deixou marcas talvez indeléveis.Marcas que, se feriram MAGO, também me feriram.

Mago amanheceu com o “rosto” todo destabocado…não são GRANDES ferimentos, mas são umas 5 ou 6 pequenas marcas onde o pelo foi arrancado e até o couro foi atingido.

Ele brigou!Com certeza ele brigou!!!Mas…com quem? Por quê?Oh!céus!Eu o obriguei a dormir no lado de fora e vejam no que deu!!!


Agora seu maravilhoso aspecto-perfeito está marcado talvez para sempre! Tenho que aceitar esta injustiça, pensando:deve ser o resultado de um rito de passagem…É uma pena, mas são coisas do CRESCIMENTO!Tenho que me conformar.

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“Que terrível acontecimento se fez REAL, na madrugada de hoje?”
Nonada: coisa comum corriqueira.
É preciso passar adiante a herança genética; gerar descendência; crescer e multiplicar. Aprender a arte marcial do gatofu e botar pra correr os rivais.
Model é mestre consumado. Nem me preocupo.
Bálsamo Pierson pr’as bicheiras eventuais, e vida que segue felinianamente…

Jucemir

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SOCOOOOORROOO!!!!!!!!!!!!!MAGO SUMIU!!!!!!!!ACHO QUE FOI TIRAR A FORRA , destruir O MALDITO QUE DESFIGUROU O SEU “ROSTO”!!!!!




Que vai acontecer desta vez? Enquanto eu conversava com Anabel, ao telefone, ele saiu de mansinho…e se picou no mundo!!!!!
Oh! Céus!!Oh! dor!!! Oh! Vida!!!Que posso fazer para impedir que esta maldita HERANÇA GENÉTICA venha destruí-lo???

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Ele reapareceu…do nada! Da mesma forma em que sumiu…De repente ele se enroscava nos meus pés sem que eu percebesse de onde veio…É algo fantástico e fantasmagórico!

Como era de se esperar, novos ferimentos, agora, na conjunção das articulações dos membros anteriores, nas costas, naquela simpática “corcundinha” que se move lentamente a cada movimento…(um amor!)…agora, ferida também!Imagino algum imbecil querendo atingir seu pescoço querendo matá-lo! Como vou poder suportar tais agressões?

A pergunta que não quer calar:


Será que, na avaliação “custo-benefício”, vale a pena tais aventuras????


Chegou morto de fome, macambúzio,cansado,abatido…Teria ganho o embate? Ou está apenas apanhando?

Agora assisto o repouso do guerreiro,ali, no meu sofá, como quem retorna ao ventre materno de onde retirará novas forças para ir gastá-las em embates (infrutíferos?), quando a noite chegar…


Haja coração!!!


Senhor Deus , dai-me forças…e a ele também!

Estas são as agruras de quem adotou, sem pedir nem desejar, o mais belo espécime de GATO SIAMÊS que se possa imaginar! Amar doi…é verdade comprovada, através dos tempos!


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

IMAGEM DESOLADA

Vejam só, meus amigos, quanta tolice pode sair da  imaginação de um(a) poeta, a partir de um mínimo episódio do cotidiano.


Insignificante descuido de uma dona-de-casa distraída (ou atenta?) é capaz de dar origem a um canto triste (de tristeza real ou fictícia, isto importa pouco) – o que importa é poder cantar…


Imagem desolada

A um canto da geladeira
algo ia perdendo o viço a cada dia
Mais pálido
Mais murcho
Mais sem lustro
Mais sem vida
…e não era uma pera!
Não queria ser visto,
atrás de outros objetos se escondia,
Sem seiva
Sem suco,
Sem sangue,
Sem poesia,
pensava-se esquecido
…não era uma pera!
Da pera, um pouco da forma, absorvia
…mas não era a pera.
Por falta de uso
Por falta de alimento
Por falta de sustento
Por falta de atenção, ele morria
…era o meu coração…



O que causa admiração é o atestado de validade que lhe confere o proeminente e respeitado pensador/escritor francês, Roland Barthes, que se debruçou sobre o perfil estrutural do discurso amoroso, identificando todo o processo através do qual o amante, o ser apaixonado, se expressa.


Afirma Barthes: “Seu [do apaixonado] discurso existe, unicamente por ondas de linguagem que lhe vem ao sabor de circunstâncias ínfimas , aleatórias.”


Dentre os “cacos” do discurso amoroso analisados por ele, um é especialmente encastoado na poesia acima (Imagem Desolada):


“Na ausência amorosa sou, tristemente, uma imagem descolada que seca, amarelece, encarquilha-se.”


De onde se pode concluir que, uma pera murcha, esquecida na geladeira, pode ser, sim, uma metáfora de um coração em agonia motivada pelo abandono.


P.S. Melhor para vocês, apaixonados, é ler “Fragmentos de um discurso amoroso” do acima citado autor.


Ficarão surpresos por se verem desnudados, sem dó nem pena!


Eu, particularmente, me “divirto” muito, lendo-o. 


Outro livro que recomendo, pertinente ao assunto: “A ética de uma paixão” de Mª Luiza Nora, recém lançado pela Editus.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Amor de muitas faces

Há semanas tenho estado do alto de tribunas virtuais (no seu antigo conceito pré-computador), colocando-me sempre contra ou a favor de alguém, ou de alguma coisa. Cansei. Essa tarefa de advogar causas indefensáveis é realmente cansativa.

Já exercer a tarefa da promotoria é mais fácil. Condenar parece-me mais prazeroso , ou os malditos “fuxicos” (ti-ti-tis) não fariam tanto sucesso.

Proponho-me, hoje, a escrever uma Crônica sobre o Amor, afinal , há muito tenho deixado de lado o mais   antigo dos temas.

Como um diamante lapidado em mil faces ou uma estrela de mil pontas, o Amor fulge de mil formas.

Cabe ao poeta desenhá-lo, vivendo-o ou não. E, com delicadeza, anunciar o que vê, em si, ou em outrem.

O cronista, um voyeur inveterado, aproveita-se de um hipotético buraco de fechadura e flagra o poeta. Por sua vez, o poeta, não se sabendo observado, deixa-se flagrar.

Em razão dessa série de coincidências surge esta crônica. É o que se vê.Trata-se de uma crônica recheada de poesias ( não saberia fazê-la diferente), mas é uma crônica.

A princípio lhes apresento o amor sem par, o amor ímpar, como diria Chico Buarque, aquele amor que espera o parceiro…

Levanto cedo. Com o sol.
Momento de ir ao jardim colher as flores.
Ritual cotidiano.
Uma liturgia…Uma ou duas flores.
Mais que isto é uma sangria.
Com elas enfeito os jarros,
sabendo que, à noite, estarão murchas e sós.
A casa fica linda…
Recolho as folhas secas que estão
sobre as cadeiras da varanda, a noite as trouxe.
Perfeito!
O café cheirando na chaleira.
O pão quentinho no forno.
Tudo pronto.
A rede se embalança, feliz, à brisa da manhã.
Com certeza espera alguém.
A espera se estende além do tempo.
O tempo escorre feito lágrimas
dos olhos, sem pressa.
O café desiste de cheirar.
O pão esfria.
A rede para, sob o escaldante sol do meio-dia.
A noite chega, fria.
As flores estão murchas e sós
…e eu também.

Quem sabe pela espera infrutífera, o poeta sente-se envolvido pela desistência:

Há um tempo para suportar,
um limite para resistir.
Depois de ali, o Hades,
Depois de ali, o Nada.
Já não se sente
o pulsar da vida.
Já não se acende
o brilho do olhar.
O des-esperar
sufoca qualquer esperança.
Nas mãos vazias
nem sequer lembranças.
No tempo interno
apenas o inverno.
Foi tão intensa e longa a espera
que matou definitivamente
a primavera.

Mas não se esgota aí a multiplicidade amorosa. Vejamos o amor quando é pensado de mansinho:

Talvez a grande ventura seja
olho no olho
mão na mão
o resto , pura ilusão.
Ansiar por flores e cores,
apenas ópio,
jeito de anestesiar o ócio,
jeito de escapar à dor,
jeito de esconder de si
o inevitável sufoco,
o profundo oco onde mergulham
outras emoções de nenhum valor.
Olho no olho, mão na mão,
mais nada,
é tudo que traz
real colorido à estrada.
Talvez seja esta
a única verdade
.

…nem sempre…nem sempre…o amor com gosto de vulcão também está por aí, em plena ERUPÇÃO:

Impossível esquecer:
noite por demais estranha…
Das que não se esquece nunca…
Matriz do jamais vivido
Arte em “forma-perdida”.
No jogo do amor febril
o toque mais atrevido.
As ânsias em torvelinho.
O clímax se aproximando
e, no auge do carinho,
de repente, um stop inesperado.
Com infantil olhar maroto
ele observa o efeito…
Meio sorriso nos lábios,
quer saber o que acontece.
Ah! Antes não o tivesse feito…
Um turbilhão, um espanto,
tempestade, terremoto…
O desejo interrompido
transformou-se em transgressão.
Choro, pranto, desespero,
soluços em profusão !
Murro…tapa…beliscão…
O espanto mudou de lado:
De olhos arregalados
o sorriso perde o rumo.
Tenta retomar o prumo…
Agora é tarde demais!
Inundação de emoções…
Difícil de controlar.
Volta a fita do começo…
Voz mansinha, sussurrada,
mãos afagando cabelos,
ternura…cuidado…zelo…
Assim se trata a criança
de quem foi surrupiado
o mais precioso brinquedo.

Um esclarecimento se faz necessário: este blog não é um confessionário ou um divã de psicanalista; ele é, tão somente, e nada mais, uma vitrine de possibilidades.

O assunto é muito vasto. Provavelmente voltarei a ele…..

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Embarcando nas águas do Amor

E lá vamos nós embarcando nas águas do AMOR, o mais antigo e constante tema dos poetas...Não existindo o AMOR,os poetas teriam que se calar.


Que restará de humano, ao mundo,
se o poeta abdicar do ofício?
Mesmo que o amor, desolado,
tenha abandonado a Terra,
o fingido amor do poeta
é brado de resistência,
prova consistente, sólida, evidente
de que, um dia, houve gente.

Entretanto, às vezes, o próprio poeta vacila...


SORTILÉGIO

Que sortilégio trágico e funesto
Procurar...procurar...procurar...
Haverá mais dramático destino?
Correr a vida com olhar sedento,
desejo ardente de achar o amor,
poder tocá-lo, sentir seu calor...
E ver a taça transbordar, em festa!

Se, em céu de Deus, o amor se manifesta
por que se esconde ele sobre a terra?
Por quais veredas, sombras ou florestas,
em que caverna escura fez seu ninho?

Amor, por Deus, responde ao meu anseio!
Ando secando em áridos caminhos...
Mas nessa estrada, sei, não vou sozinho.
Multidões de fantasmas peregrinos
também anseiam pelo amor primeiro.
Também se envolvem em trágico destino:
Poder, às vezes, vislumbrar o sonho
e jamais tocá-lo em susto verdadeiro.

Um dia, o inesperado causa uma surpresa...e tudo muda. Ou parece mudar.

A Festa

...e o milagre se vê acontecendo...
Emerge do Hades a alma sucumbida.
...De novo aos céus em busca da amplidão
a lua nova inspira crescimento.
Quarto-crescente enche, de novo, o espaço.

Há um balão inflando-se de gozo.
A sinfonia vem trazendo risos
O ar espalha perfume amadeirado,
e as borboletas dançam a música do amor
De novo o sol enternecido,
por entre nuvens brancas e azul profundo.
Há música, sim, há Deus no mundo.
A esperança volta a triunfar.

A primavera chegou em calendário louco
...um envolvente esplendor.
No ar, um canto de anjos,
e há cores em cada canto
...e se fez presente a festa!
Em tudo brilha inesperada chama!

Mas...por quê?...por quê?... por quê?...
Porque o meu amor me disse:
" Te amo!"

( Mentira?...Logro?...Ilusão?...
Oh, Deus! Não importa!
Esta é a senha da ressurreição!)

Confirmando o que lhe parece ser A Verdade, o poeta continua:

AMAR, SEMPRE!

Sem amor, ninguém é feliz.
Somente amando é possível tocar a felicidade.
(
Qualquer especie de amor vale a pena?)

Como a pele e a polpa do caqui
A pálpebra e o olho,
O ritmo e a poesia,
a parceria do amor com a alegria
é dupla insuperável
inseparável
inigualável.
Amar o inusitado,
Amar em volta...e o centro.
Entrar no jogo da sedução
e se permitir queimar as mãos
(mas, nunca o coração!)
Amar a algazarra ingênua
dos periquitos, das maritacas,
Ah, sim...e das crianças.

Amar o som do trombone
e o canto das sereias.
Amar a mágoa das lembranças.
Acalentar as lágrimas antigas
e delas poder sorrir.
Só o amor consagra esse milagre.

O amor dá colorido
a um passado sombrio.
Na melodia do amor
é que a alegria vem...Amar alguém!

Amar é redenção
é reconstrução
é alucinação.

No labirinto do amor, entretanto,
é indispensável o fio de Ariadne.
Sem ele corre-se, não só riscos, mas perigo!
O risco de conhecer a profundidade do oceano
E o perigo de jamais voltar à tona...

Entre a felicidade e o infortúnio
é preciso saber viver.
Amar, sim, sempre!
Mas conservar a lucidez...
Com a astúcia de um jogador de xadrez!

Olhos abertos às veredas do fingimento.
Intuir a cilada das palavras bonitas, porém falsas.
Estar atento, atento, sempre atento
aos lances traiçoeiros, ao passo em falso,
Ao fosso que se abre em escancaradas bocas
para engolir o incauto amante.

Amar, sempre! Sempre! Até certo ponto.
Sem abrir mão do juízo...
E mentir, também, se for preciso...


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Huumm! Parece que a poeta se encontra sob a ação e os efeitos de intensos desenganos amorosos...Será?! Não creio.
É apenas a alma lírica ou romântica querendo se expressar... Será?!










segunda-feira, 11 de maio de 2009

...Ainda Florbela Espanca

...apesar de toda água que desce sobre a minha terra, o meu tema permanece:

FLORBELA ESPANCA,
poetisa alentejana , natural de Vila Viçosa, deixou a vida (por vontade própria)
na mesma data em que à vida compareceu.

Marcada pelo paradoxo, Florbela vivia em constante conflito entre o que idealizava e o que conseguia realizar.
Seus sonhos, desejos, sentimentos, pensamentos, atitudes
e realizações se digladiavam em uma arena constante.
...E o resultante: sofrimento!

"
Ninguém é definível numa só dimensão, num só conjunto de qualidades. Todo ser é uma intersecção de adjetivações diferentes e até opostas" (Diogo de Souza, filósofo português).

E assim se pode dizer de Florbela...


No último ano de sua vida escreveu um diário. Entretanto o utilizou de maneira escassa e, sobre ele, ela afirma não ter qualquer objetivo, mas espera que..."Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me."

Eu

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia

E, mesmo que que o soubesse, não o dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via !

................................................................

Assim, jovem, sofrida, ao que parece, carente não somente do amor de alguém, mas também do amor a si mesma (para alguns analistas da sua obra isto se revela como o transbordar dos limites de uma personalidade única)...vai por aí , a poeta.

Na vida nada tenho e nada sou;

Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber pra onde vou !


Esta ausência de si mesma, entretanto, não foi maior que o desencontro amoroso em que viveu.


A linguagem poética é muito forte e nos atinge de várias maneiras...
Há versos possuídos da maciez da pérola... e os nossos "dedos" se comprazem em afagá-los, deliciados com a sua delicadeza...

"O contrário também bem que pode acontecer
"(Gil)... E há versos que, ao tocá-los podemos queimar as mãos...
São como pedras vulcânicas recém saídas do ventre da terra. Há algo de corrosivo em suas palavras... Um ímpeto que, por ser intempestivo, pode incomodar.

Com certeza os versos de Aline Dichte se revelam neste código, algumas vezes ...
Que disse ela a Florbela Espanca?
Que diálogo emocionado resultou desse confronto?
Que versos da portuguesinha provocaram Aline?

Talvez este soneto?

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre de minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,

Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel
que nada existe que a mitigue e a farte!...

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma

Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar, que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

A reação de Aline não se fez esperar:

PARA FLORBELA

Não gosto de ti, mulher.
Mulher que espalha versos...
Versos que fervilham amor,
Amor que é muito mais que amor.

Há uma química cruel
- de violência, de mágoa, de alegria -
disfarçada de delicadezas.
Uma só gota do que dizes
corrói toda lucidez.

Por seres fiel espelho
custa-me muito encarar-te.
Escancarar, despudoradamente,
a alma feminina,
como tu fazes, é traição.

Não quero ouvir-te,
nem ver-te
nem saber-te, ali parada,
no limiar da minha própria verdade.

Amar assim, loucura, é o que é...
Mais que loucura,
é quimera, é fantasia.
Ao olhar teus olhos,
em dores me consolo:
Amar assim só serve à poesia !

Eu, Dinah, gostaria de compreender e ajudar ( que anacronismo!), e fiz

CRÔNICA para FLORBELA

Pobre pequena poeta portuguesa...
Linda... Jovem... -" Uma flor! " vaticinou alguém
vendo-a recém-nascida
...mas , como uma flor, consumiu-se
em fugaz primavera.

Uma vida pela frente,
deixou-se abater...
Deixou-se minguar...
e quase enlouquecer.

A miragem incansável
as suas forças minou.
Que falta de lucidez !
Injusta consigo mesma
viu, fora de si, sua sorte.
Supôs, além de si, um ideal
sem perceber que,
buscando o inatingível,
perseguia a própria morte.

Nesse caminho sem volta
a bela flor se perdeu.
Tanta vida ao seu redor,
ela, morbidamente, assumiu
a dor de sentir-se só.
E, em vulcão incontrolável,
explodiu a sua dor
em palavras formidáveis.

Amor não correspondido
é ilusão do coração.
Veneno que corrói a alma.
Alma que, por não se conhecer,
não se compreendeu capaz
de vencer até mesmo o mundo,
se necessário se fizesse.

Romper amarras,
sentir-se livre e seguir,
completamente inteira
em uma outra direção.

Que pena, Florbela!...
Perdeste a vida a esmo.
Não tiveste a lucidez
de experimentar, sorrindo,
o " Conhece-te a ti mesmo !"





domingo, 12 de abril de 2009

Deixando de lado bobagens como "comprinhas e sorvetes " que estão longe de me definirem como pessoa, tema surgido em tolo momento de brincar com coisas sérias, vamos, nesse domingo de Páscoa, que quer dizer passagem, fazer uma passagem para algo, a meu ver, mais consistente.

Há bastante tempo venho querendo conversar com vocês sobre um ícone da nossa literatura -Grande Sertão: Veredas.
N
ão sou especialista, nem o toquei com dedos técnicos ou analíticos...
Mas o vivi com o coração e o entronizei em mim, completamente apaixonada.
Conhecia-lhe a fama. Mas guardava-o à distância, como se temesse entrar em terreno sagrado.
Até que me revesti de coragem. pé ante pé, aproximei-me.

Era um livro emprestado e, como manda a boa educação, abstive-me de romper sua virgindade... e nenhuma anotação fiz. Costumo ir fazendo intervenções, quase dialogando, com o autor ou com o tema, à medida que vou avançando na leitura...mas, como o livro não era meu, mantive-me proibida.

Não é um livro fácil.
Um romance em forma de relato.Pode-se dizer, um monólogo de alguém que encontrou um atento ouvinte ( que não emerge explicitamente) e Riobaldo Tatarana, agora fazendeiro, ex-jagunço, confiando na memória, "viaja" pelo seu próprio passado ao ritmo das lembranças não coordenadas pela coerência cronológica.

É aí que a coisa pega.
Um caleidoscópio das mais variadas cores...sombrias, ou luminosas, onde o leitor vê-se totalmente hipnotizado, tentando não perder o prumo.

"O narrador parece experimentar vários rumos, embrenha-se num atalho, marca passo, desvia-se, volta ao ponto inicial, recomeça a ação, parece fragmentar-se num labirinto de episódios desconexos." (Paulo Rónai)

Ouso dar-lhes um conselho:
Não entrem nessa caatinga plena de espinheiros, cactos, boqueirões, envolvidos numa aridez cheia de traições, demônios, friúmes, inseguranças e esperanças, não entrem sem um bordão.
Tenham consigo um lápis e vão registrando, nas margens, ao lado das expressões que lhes calaram fundo, algum comentário pessoal. Ou vocês correm o risco de ter que lê-lo sete vezes seguidas ( como eu o fiz) só para reeencontrar as pérolas que somem em 624 páginas.
Penei muito, até receber ordem do dono do livro (meu irmão), permitindo-me fazer meus registros, fazendo-me situar melhor entre as magníficas considerações de João Guimarães Rosa.

Agora, minha relação com a história de Tatarana e Diadorim possui uma certa intimidade que me dá o direito de admoestar, inconformada, a postura da protagonista.
Ah Diadorim, podia ter sido diferente... ( mas aí não haveria Grande Sertão: Veredas).


Veredas do Grande Sertão

Ah! Diadorim...
Foste intransigente demais.
Dia após dia, noite após noite, viste
a dor, a tortura, a ânsia, a loucura...
Viste o sofrer de quem te amava,
te queria, te desejava.

De quem queria te tocar
te falar
te segurar as mãos
te dizer ternuras
se aproximar o mais possível,
te servir
te acariciar
estar sempre ao teu lado
passar as mãos em teus cabelos
te fechar os olhos, te ninar...
cantar, talvez , uma canção de amigo
para que pudesses dormir ao seu abrigo,
Fazer silêncio apaixonado
para descansar este teu corpo cansado
das lutas e labutas do dia.

Olhar-te com olhar de mãe
que adora a cria.
Fazer dos braços um ninho
e do teu corpo, um passarinho.

Diadorim, foste louca
em negar tanta possibilidade.
Podias ter sido feliz.
Ter conhecido a amizade
no que ela tem de mais puro.
Deixado as almas se enlaçarem,
seguirem juntas sem temer escuro,
monstros, traições, maldades,
sem temer nem mesmo o demo...
Seguirem de tal forma iluminadas,
sendo, elas mesmas, o sol da estrada.

Ah! Diadorim,
Não há perdão para tamanho sacrifício,
Não há perdão para tanto desperdício.




sexta-feira, 3 de abril de 2009

Aline reapareceu...



Ontem recebi uma visita inesperada. Já há algum tempo ela não me aparecia: Aline (Dichte), minha amiga.

Chegou, sentou e entabulamos uma conversa que me pareceu meio sem entusiasmo...
Eu, na cozinha, limpava uma pequena toalha de plástico. De repente, percebi certa semelhança entre a toalha e a Aline, ali na minha frente: ambas se revelavam impermeáveis.
Aline conservava-se distante, nada a atingia em profundidade, nada a alterava, apesar das minhas provocações.
A conversa rolou por algum tempo e em determinado momento Aline, sem se despedir, retirou-se.
Só então vi, sobre o sofá, algo que ela esqueceu.Uma pequena sacola contendo alguns tabletes de chocolate, uma revista com data bastante atrasada...e uma folha de papel onde havia uma poesia escrita a lápis ( com data mais atrasada ainda - estava a completar dois anos de escrita).

Achei o texto poético interessante e, considerando a minha atual fase de aridez produtiva, senti ser providencial ter nas mãos aquele achado.
Entrei em contato com minha amiga e pedi autorização para publicar, aqui, a sua criação.
A resposta não me surpreendeu muito:
- Tanto faz...
Havia profunda indiferença na sua voz.

Coincidência, ou não, o poema se chama:

Tanto faz...

Não mais vou te procurar,
Tenho muito a te dizer
mas nada te apraz ouvir.
Guardemos toda distância.
É melhor assim...

Quase que tua presença,
modulada por um fio,
era a mais doce alegria
que, à noite, me agasalhava.
Sem ela já não dormia.


Era a última oração.
Era o ponto final do dia.
Tua voz era a almofada macia
onde a minha alma-gato
se enroscava pra dormir.

Agora, deixo ao silêncio
a função de me ninar...
Ou àquela fiel canção
sempre, sempre, ao meu alcance.
Sempre pronta, a me esperar,
Sempre pronta a me escutar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Canção de uma manhã ensolarada


Falar de amores é (quase) fácil...
Difícil é falar do Amor.
O Amor está no mundo
está na Vida
está no espaço...
Em tudo que nos rodeia
o Amor está!

Pois é o Amor a Alma do Universo.

O ínfimo e o máximo contêm o Amor
- O Amor contém e está contido -
Ele se encontra em nossas veias...
Por trás dos nossos olhos, nas estrelas...
Nos sonhos mais secretos, em cada canto.

O eco eterno da explosão inicial é o seu canto...

Nada do que existe, nem ninguém
- ainda não, ou já nascido -
escapa ao seu divino esplendor.

O Amor comporta tudo:
convive com a Tristeza,
com a Dor,
com o Sofrimento,
O Amor convive com o amor
por mais desencontrado que ele seja...

Mas o Amor se envolve em bruma acinzentada
se tem que conviver
com a Inveja,
com a Mágoa,
com o Rancor.
Ah! O Amor!...
O Amor exige de volta...o Amor!



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Canto da quarta-feira de cinzas

De volta, em pleno Carnaval...
O Carnaval é um planeta especial , no qual as pessoas se comportam também de maneira inusual.Todos se divertem numa orgia de solidão acompanhada.Tem-se a impressâo de que tudo é alegria... e que somos um bloco único onde todos se amam e vivem o êxtase do contentamento.
...Mas existe a quarta-feira- de- cinzas (que aqui na Bahia demora mais de se apresentar) e resta apenas o confete numa fantasia suada, amassada e abandonada...não serve para o ano seguinte.
Quem não participa dessa loucura coletiva sente-se em outro planeta e procura o que fazer, para também sentir-se vivo.
Eu, da minha parte, venho conversar com vocês... é mais gratificante.


Antes do beija-flor entrar no nosso circuito, falávamos de AMOR...Talvez valha a pena continuar no tema (só mais um pouco).
No meu segundo livro escrevi algo que passo para vocês.
Um poema que descreve um amor que morre de "morte morrida". Não há trauma, não há drama, não há nada que gere tragédia... É apenas uma constatação.


FIM
Um amor que desmorona
é ave abatida em vôo
mas que não morre do tiro
- não imediatamente.
Cai no chão e agoniza,
a vida esvaindo aos poucos.

Se debate, busca o ar,
da garganta, gritos roucos.
Já não vê os horizontes
descortinados em vôo.
Perdeu o ar puro dos montes.
Já não encontra saída.

Hemorragia incontida
faz sucumbir o alento.
Tudo vai ensombrecendo
na dor que o martiriza.
As forças se retirando
numa lenta agonia...

A desistência chegando
como um anjo que socorre,
trazendo alívio ao tormento.
A ave entende o momento.
Vê que é chegado o tempo,
se acalma...suspira...e morre.


Mas nem sempre as coisas acontecem tão docemente.
Há casos e casos... Há quem seja abençoado ( ou amaldiçoado) com sentimentos bem mais exacerbados... e é aí que a coisa pega!
Observem o que acontece com quem vê seu amor, seu apaixonamento, guilhotinado em pleno auge. A maldição do poeta é colocar em palavras o que deveria ficar sendo um segredo somente seu.
Encontrei essa poesia, que achei admirável...mas não gostaria de viver esse sentimento por demais dilacerante. Gostaria de tê-la escrito sem ter passado por tal tsunami...o que é absolutamente impossível!

Blues Fúnebres
Wystan Hugh Auten

Que parem os relógios, cale o telefone.
Jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais.
Que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do esquife com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima , em alvoroço,
escrevam contra o céu, o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto - um laço no pescoço -
E os guardas usem finas luvas cor de breu.

Era meu norte, sul, meu leste, meu oeste,enquanto
viveu. Meus dias úteis, meu fim de semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
Quem julga o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar as estrelas -são molestas-
Guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

INSENSATEZ




Loucura...estupidez...

inocência ou insensatez?
A verdade é que
nos deixamos enredar
em rede pior que teia
de astuta aranha.

Que seria o amor, senão isto?

A tarrafa nos alcança,
já não podemos fugir.
As suas bordas de chumbo
fazem-nos prisioneiros
...peixes sem direito de fluir
ao sabor da liberdade
do rio em que escorre a vida.

Gaiola dourada tolhendo
vôo de pássaros
outrora livres...
Qualquer pessoa sensata
reconhece toda a trama,
prevê o turbulento drama
de alguém enamorado

...mas quem
tem juízo suficiente
para não se permitir -nunca-
ser fisgado ou flechado
pelo infantil Deus do Amor?
Eu não conheço ninguém
(Pensando bem, conheço, sim).

...E, apesar de tais prisões,
ainda pensar-se feliz!

Tolice!
Bobagem!
Insensatez!
Essas verdades vêm sendo,
à exaustão , repetidas.
Séculos as têm escrito nas estrelas...
Mas, cegos, não queremos vê-las.
- São lições jamais aprendidas.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Abissal distância


Em amor,

sou gueixa,

mãos abertas, espalmadas,

serviçal enamorada

total disponibilidade.

Bandeja abarrotada

de frutas a escolher.

Árvore de sombra acolhedora

sou rede

sou lareira

em tempo de rigor invernal.

Sou riacho no calor

sereia de canto doce

fazendo adormecer.

Berço que aninha e agasalha

sou brasa que arde e queima

deixando marca infernal.

Mas…

Sem amor

Sou estrela inalcançável

Sou miragem no deserto

Fortaleza inexpugnável

Sou porta acorrentada,

acesso intransponível,

fosso cheio de serpentes.

Cerca de arame farpado

Nem um gesto acolhedor

Nada, nada a oferecer

Se a jornada

é um convite a dois,

há que ter devotamento,

fazendo nascer roseiras

onde só havia espinhos.

Fazendo cair a chuva

que vem emprenhar a terra

reflorescendo o caminho

…e a viagem se faz divina.

Aline Dichte

…………………………………………………………………………………………………

Eis aí mais um poema da minha amiga Aline.

Enquanto ela não tem o seu próprio blog, vamos dividindo este espaço. É um prazer para mim e para os nossos leitores. Espero que seja do agrado de todos essa energia especial que dela emana.

Um beijo.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Permitam-me

Pela segunda vez vou escrever o que quero! O monstro acabou de "engolir" o que escrevi, sem publicar...

Permitam-me falar de Amor...

Amar é bom, é muito bom!
Se a vida que vivemos tem seu lado obscuro, tem também seu lado luminoso, à espera de que nós possamos participar, irradiando tudo que de melhor possuímos... e o que de melhor possuímos é a nossa possibilidade de amar.
O amor, a ternura, a solidariedade, o caminhar juntos são a forma mais humana de fazer germinar sobre este mundo, sobre a nossa vida pessoal e comunitária, o bem que precisamos.
Que tal acompanhar-me nessa " quase oração "?


NECESSIDADE VITAL


Preciso ardentemente da inocência
como a escuridão precisa da luz.


Preciso da pureza, da limpidez,
como a ave precisa do espaço para voar.


Preciso ver olhos sem sombra de dubiedade
como a criança precisa da mãe que a alimenta.

Preciso, ao menos de um segundo
em que a verdade seja plena.



Preciso que a ternura seja o sol do meio-dia
ao menos por um dia!

Preciso crer que a maldade não existe
e confiar que o mundo ainda tem jeito.

Preciso acreditar que a humanidade
foi uma boa idéia.

Preciso de Você!

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Quase não falei de Amor... É generoso, o Amor...e democrático. Está sempre pronto a invadir e colorir qualquer espaço disponível, qualquer coração aberto disposto a se entregar e aceitar suas
normas, às vezes surpreendentes.

NO LIMITE

Quando o amor vem chegando
tudo fica verdadeiro.
Aperto de mão é usina.
Flores cantam na janela.
Chuva tem gosto de bênção
e mesmo que seja junho,
calor é de fevereiro.

O coração se debate
como pássaro em gaiola,
batuca que nem pandeiro.
Nem dá para olhar nos olhos.
Rubro da face revela
o desequilíbrio interno
do corpo em nova cadência.

Arre! É quase desespero,
parece revolução.
É o mais colossal sintoma,
a fina constatação,
a mais completa evidência
de que a vida está viva
e pronta pra ser vivida
até o dia derradeiro.

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As ilustrações ficarão por conta de Anabel Cavalcanti...as fotos são dela!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Milagre

Divina mão florentina intuiu
a divindade do toque
e o eternizou nas cores
da esplendorosa Sistina

Do toque - Faça-se a Vida!
...a Vida surpreendeu.

Do toque - Surja a Beleza!
...a cerejeira floriu.

Do toque - Que venha o Amor!
...as mãos se entrelaçaram.

Do toque - Que viva o Sonho!
...os olhos se entreabriram.

Do toque - Faça-se a Luz!
...cintilou o Firmamento.

Do toque - Que triunfe a Alegria!
...Milagre: aconteceu Você!

Definitivamente é um milagre cotidiano acontecer em nossas vidas,aquela pessoa, ou aquelas pessoas, que vem trazendo sorrisos sinceros, gestos de gentileza, afagos carinhosos...
melhor ainda se É VOCÊ essa pessoa que faz a vida de alguém mais feliz, mesmo que por alguns momentos.
É tão simples!

Veja o que diz Emily Dickinson:

"Se eu puder evitar que um coração se parta
Não viverei em vão.
Se eu puder suavizar a aflição de uma vida,
Aplacar uma dor,
Ou ajudar um frágil passarinho
passarinho1A retornar ao ninho,
Não viverei em vão."