domingo, 5 de dezembro de 2010
Historias que ouvi contar
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
A ANGÚSTIA
Agora seu maravilhoso aspecto-perfeito está marcado talvez para sempre! Tenho que aceitar esta injustiça, pensando:deve ser o resultado de um rito de passagem…É uma pena, mas são coisas do CRESCIMENTO!Tenho que me conformar.
Será que, na avaliação “custo-benefício”, vale a pena tais aventuras????
Chegou morto de fome, macambúzio,cansado,abatido…Teria ganho o embate? Ou está apenas apanhando?
Haja coração!!!
Senhor Deus , dai-me forças…e a ele também!
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
IMAGEM DESOLADA
Insignificante descuido de uma dona-de-casa distraída (ou atenta?) é capaz de dar origem a um canto triste (de tristeza real ou fictícia, isto importa pouco) – o que importa é poder cantar…
O que causa admiração é o atestado de validade que lhe confere o proeminente e respeitado pensador/escritor francês, Roland Barthes, que se debruçou sobre o perfil estrutural do discurso amoroso, identificando todo o processo através do qual o amante, o ser apaixonado, se expressa.
Afirma Barthes: “Seu [do apaixonado] discurso existe, unicamente por ondas de linguagem que lhe vem ao sabor de circunstâncias ínfimas , aleatórias.”
Dentre os “cacos” do discurso amoroso analisados por ele, um é especialmente encastoado na poesia acima (Imagem Desolada):
“Na ausência amorosa sou, tristemente, uma imagem descolada que seca, amarelece, encarquilha-se.”
De onde se pode concluir que, uma pera murcha, esquecida na geladeira, pode ser, sim, uma metáfora de um coração em agonia motivada pelo abandono.
P.S. Melhor para vocês, apaixonados, é ler “Fragmentos de um discurso amoroso” do acima citado autor.
Ficarão surpresos por se verem desnudados, sem dó nem pena!
Eu, particularmente, me “divirto” muito, lendo-o.
Outro livro que recomendo, pertinente ao assunto: “A ética de uma paixão” de Mª Luiza Nora, recém lançado pela Editus.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O Amor de muitas faces
Há semanas tenho estado do alto de tribunas virtuais (no seu antigo conceito pré-computador), colocando-me sempre contra ou a favor de alguém, ou de alguma coisa. Cansei. Essa tarefa de advogar causas indefensáveis é realmente cansativa.
Já exercer a tarefa da promotoria é mais fácil. Condenar parece-me mais prazeroso , ou os malditos “fuxicos” (ti-ti-tis) não fariam tanto sucesso.
Proponho-me, hoje, a escrever uma Crônica sobre o Amor, afinal , há muito tenho deixado de lado o mais antigo dos temas.
Como um diamante lapidado em mil faces ou uma estrela de mil pontas, o Amor fulge de mil formas.
Cabe ao poeta desenhá-lo, vivendo-o ou não. E, com delicadeza, anunciar o que vê, em si, ou em outrem.
O cronista, um voyeur inveterado, aproveita-se de um hipotético buraco de fechadura e flagra o poeta. Por sua vez, o poeta, não se sabendo observado, deixa-se flagrar.
Em razão dessa série de coincidências surge esta crônica. É o que se vê.Trata-se de uma crônica recheada de poesias ( não saberia fazê-la diferente), mas é uma crônica.
A princípio lhes apresento o amor sem par, o amor ímpar, como diria Chico Buarque, aquele amor que espera o parceiro…
Levanto cedo. Com o sol.
Momento de ir ao jardim colher as flores.
Ritual cotidiano.
Uma liturgia…Uma ou duas flores.
Mais que isto é uma sangria.
Com elas enfeito os jarros,
sabendo que, à noite, estarão murchas e sós.
A casa fica linda…
Recolho as folhas secas que estão
sobre as cadeiras da varanda, a noite as trouxe.
Perfeito!
O café cheirando na chaleira.
O pão quentinho no forno.
Tudo pronto.
A rede se embalança, feliz, à brisa da manhã.
Com certeza espera alguém.
A espera se estende além do tempo.
O tempo escorre feito lágrimas
dos olhos, sem pressa.
O café desiste de cheirar.
O pão esfria.
A rede para, sob o escaldante sol do meio-dia.
A noite chega, fria.
As flores estão murchas e sós
…e eu também.
Quem sabe pela espera infrutífera, o poeta sente-se envolvido pela desistência:
Há um tempo para suportar,
um limite para resistir.
Depois de ali, o Hades,
Depois de ali, o Nada.
Já não se sente
o pulsar da vida.
Já não se acende
o brilho do olhar.
O des-esperar
sufoca qualquer esperança.
Nas mãos vazias
nem sequer lembranças.
No tempo interno
apenas o inverno.
Foi tão intensa e longa a espera
que matou definitivamente
a primavera.
Mas não se esgota aí a multiplicidade amorosa. Vejamos o amor quando é pensado de mansinho:
Talvez a grande ventura seja
olho no olho
mão na mão
o resto , pura ilusão.
Ansiar por flores e cores,
apenas ópio,
jeito de anestesiar o ócio,
jeito de escapar à dor,
jeito de esconder de si
o inevitável sufoco,
o profundo oco onde mergulham
outras emoções de nenhum valor.
Olho no olho, mão na mão,
mais nada,
é tudo que traz
real colorido à estrada.
Talvez seja esta
a única verdade.
…nem sempre…nem sempre…o amor com gosto de vulcão também está por aí, em plena ERUPÇÃO:
Impossível esquecer:
noite por demais estranha…
Das que não se esquece nunca…
Matriz do jamais vivido
Arte em “forma-perdida”.
No jogo do amor febril
o toque mais atrevido.
As ânsias em torvelinho.
O clímax se aproximando
e, no auge do carinho,
de repente, um stop inesperado.
Com infantil olhar maroto
ele observa o efeito…
Meio sorriso nos lábios,
quer saber o que acontece.
Ah! Antes não o tivesse feito…
Um turbilhão, um espanto,
tempestade, terremoto…
O desejo interrompido
transformou-se em transgressão.
Choro, pranto, desespero,
soluços em profusão !
Murro…tapa…beliscão…
O espanto mudou de lado:
De olhos arregalados
o sorriso perde o rumo.
Tenta retomar o prumo…
Agora é tarde demais!
Inundação de emoções…
Difícil de controlar.
Volta a fita do começo…
Voz mansinha, sussurrada,
mãos afagando cabelos,
ternura…cuidado…zelo…
Assim se trata a criança
de quem foi surrupiado
o mais precioso brinquedo.
Um esclarecimento se faz necessário: este blog não é um confessionário ou um divã de psicanalista; ele é, tão somente, e nada mais, uma vitrine de possibilidades.
O assunto é muito vasto. Provavelmente voltarei a ele…..
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Embarcando nas águas do Amor
Que restará de humano, ao mundo,
se o poeta abdicar do ofício?
Mesmo que o amor, desolado,
tenha abandonado a Terra,
o fingido amor do poeta
é brado de resistência,
prova consistente, sólida, evidente
de que, um dia, houve gente.
Entretanto, às vezes, o próprio poeta vacila...
Que sortilégio trágico e funesto
Procurar...procurar...procurar...
Haverá mais dramático destino?
Correr a vida com olhar sedento,
desejo ardente de achar o amor,
poder tocá-lo, sentir seu calor...
E ver a taça transbordar, em festa!
Se, em céu de Deus, o amor se manifesta
por que se esconde ele sobre a terra?
Por quais veredas, sombras ou florestas,
em que caverna escura fez seu ninho?
Amor, por Deus, responde ao meu anseio!
Ando secando em áridos caminhos...
Mas nessa estrada, sei, não vou sozinho.
Multidões de fantasmas peregrinos
também anseiam pelo amor primeiro.
Também se envolvem em trágico destino:
Poder, às vezes, vislumbrar o sonho
e jamais tocá-lo em susto verdadeiro.
Um dia, o inesperado causa uma surpresa...e tudo muda. Ou parece mudar.
A Festa
...e o milagre se vê acontecendo...
Emerge do Hades a alma sucumbida.
...De novo aos céus em busca da amplidão
a lua nova inspira crescimento.
Quarto-crescente enche, de novo, o espaço.
Há um balão inflando-se de gozo.
A sinfonia vem trazendo risos
O ar espalha perfume amadeirado,
e as borboletas dançam a música do amor
De novo o sol enternecido,
por entre nuvens brancas e azul profundo.
Há música, sim, há Deus no mundo.
A esperança volta a triunfar.
A primavera chegou em calendário louco
...um envolvente esplendor.
No ar, um canto de anjos,
e há cores em cada canto
...e se fez presente a festa!
Em tudo brilha inesperada chama!
Mas...por quê?...por quê?... por quê?...
Porque o meu amor me disse:
" Te amo!"
( Mentira?...Logro?...Ilusão?...
Oh, Deus! Não importa!
Esta é a senha da ressurreição!)
Confirmando o que lhe parece ser A Verdade, o poeta continua:
AMAR, SEMPRE!
Sem amor, ninguém é feliz.
Somente amando é possível tocar a felicidade.
(Qualquer especie de amor vale a pena?)
Como a pele e a polpa do caqui
A pálpebra e o olho,
O ritmo e a poesia,
a parceria do amor com a alegria
é dupla insuperável
inseparável
inigualável.
Amar o inusitado,
Amar em volta...e o centro.
Entrar no jogo da sedução
e se permitir queimar as mãos
(mas, nunca o coração!)
Amar a algazarra ingênua
dos periquitos, das maritacas,
Ah, sim...e das crianças.
Amar o som do trombone
e o canto das sereias.
Amar a mágoa das lembranças.
Acalentar as lágrimas antigas
e delas poder sorrir.
Só o amor consagra esse milagre.
O amor dá colorido
a um passado sombrio.
Na melodia do amor
é que a alegria vem...Amar alguém!
Amar é redenção
é reconstrução
é alucinação.
No labirinto do amor, entretanto,
é indispensável o fio de Ariadne.
Sem ele corre-se, não só riscos, mas perigo!
O risco de conhecer a profundidade do oceano
E o perigo de jamais voltar à tona...
Entre a felicidade e o infortúnio
é preciso saber viver.
Amar, sim, sempre!
Mas conservar a lucidez...
Com a astúcia de um jogador de xadrez!
Olhos abertos às veredas do fingimento.
Intuir a cilada das palavras bonitas, porém falsas.
Estar atento, atento, sempre atento
aos lances traiçoeiros, ao passo em falso,
Ao fosso que se abre em escancaradas bocas
para engolir o incauto amante.
Amar, sempre! Sempre! Até certo ponto.
Sem abrir mão do juízo...
E mentir, também, se for preciso...
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Huumm! Parece que a poeta se encontra sob a ação e os efeitos de intensos desenganos amorosos...Será?! Não creio.
É apenas a alma lírica ou romântica querendo se expressar... Será?!
segunda-feira, 11 de maio de 2009
...Ainda Florbela Espanca
FLORBELA ESPANCA,
poetisa alentejana , natural de Vila Viçosa, deixou a vida (por vontade própria)
na mesma data em que à vida compareceu.
Marcada pelo paradoxo, Florbela vivia em constante conflito entre o que idealizava e o que conseguia realizar.
Seus sonhos, desejos, sentimentos, pensamentos, atitudes e realizações se digladiavam em uma arena constante.
...E o resultante: sofrimento!
"Ninguém é definível numa só dimensão, num só conjunto de qualidades. Todo ser é uma intersecção de adjetivações diferentes e até opostas" (Diogo de Souza, filósofo português).
E assim se pode dizer de Florbela...
No último ano de sua vida escreveu um diário. Entretanto o utilizou de maneira escassa e, sobre ele, ela afirma não ter qualquer objetivo, mas espera que..."Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me."
Eu
Até agora eu não me conhecia.

Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que que o soubesse, não o dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via !
................................................................
Assim, jovem, sofrida, ao que parece, carente não somente do amor de alguém, mas também do amor a si mesma (para alguns analistas da sua obra isto se revela como o transbordar dos limites de uma personalidade única)...vai por aí , a poeta.
Na vida nada tenho e nada sou;
Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber pra onde vou !
Esta ausência de si mesma, entretanto, não foi maior que o desencontro amoroso em que viveu.
A linguagem poética é muito forte e nos atinge de várias maneiras...
Há versos possuídos da maciez da pérola... e os nossos "dedos" se comprazem em afagá-los, deliciados com a sua delicadeza...
"O contrário também bem que pode acontecer "(Gil)... E há versos que, ao tocá-los podemos queimar as mãos...
São como pedras vulcânicas recém saídas do ventre da terra. Há algo de corrosivo em suas palavras... Um ímpeto que, por ser intempestivo, pode incomodar.
Com certeza os versos de Aline Dichte se revelam neste código, algumas vezes ...
Que disse ela a Florbela Espanca?
Que diálogo emocionado resultou desse confronto?
Que versos da portuguesinha provocaram Aline?
Talvez este soneto?
Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre de minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,

Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,
Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel
que nada existe que a mitigue e a farte!...
E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar, que não me amas...
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...
A reação de Aline não se fez esperar:
PARA FLORBELA
Não gosto de ti, mulher.
Mulher que espalha versos...
Versos que fervilham amor,
Amor que é muito mais que amor.
Há uma química cruel
- de violência, de mágoa, de alegria -
disfarçada de delicadezas.
Uma só gota do que dizes
corrói toda lucidez.
Por seres fiel espelho
custa-me muito encarar-te.
Escancarar, despudoradamente,
a alma feminina,
como tu fazes, é traição.
Não quero ouvir-te,
nem ver-te
nem saber-te, ali parada,
no limiar da minha própria verdade.
Amar assim, loucura, é o que é...
Mais que loucura,
é quimera, é fantasia.
Ao olhar teus olhos,
em dores me consolo:
Amar assim só serve à poesia !
Eu, Dinah, gostaria de compreender e ajudar ( que anacronismo!), e fiz
CRÔNICA para FLORBELA
Pobre pequena poeta portuguesa...
Linda... Jovem... -" Uma flor! " vaticinou alguém
vendo-a recém-nascida
...mas , como uma flor, consumiu-se
em fugaz primavera.
Uma vida pela frente,
deixou-se abater...
Deixou-se minguar...
e quase enlouquecer.
A miragem incansável
as suas forças minou.
Que falta de lucidez !
Injusta consigo mesma
viu, fora de si, sua sorte.
Supôs, além de si, um ideal
sem perceber que,
buscando o inatingível,
perseguia a própria morte.
Nesse caminho sem volta
a bela flor se perdeu.
Tanta vida ao seu redor,
ela, morbidamente, assumiu
a dor de sentir-se só.
E, em vulcão incontrolável,
explodiu a sua dor
em palavras formidáveis.
Amor não correspondido
é ilusão do coração.
Veneno que corrói a alma.
Alma que, por não se conhecer,
não se compreendeu capaz
de vencer até mesmo o mundo,
se necessário se fizesse.
Romper amarras,
sentir-se livre e seguir,
completamente inteira
em uma outra direção.
Que pena, Florbela!...
Perdeste a vida a esmo.
Não tiveste a lucidez
de experimentar, sorrindo,
o " Conhece-te a ti mesmo !"
domingo, 12 de abril de 2009
Há bastante tempo venho querendo conversar com vocês sobre um ícone da nossa literatura -Grande Sertão: Veredas.
Não sou especialista, nem o toquei com dedos técnicos ou analíticos...
Mas o vivi com o coração e o entronizei em mim, completamente apaixonada.
Conhecia-lhe a fama. Mas guardava-o à distância, como se temesse entrar em terreno sagrado.
Até que me revesti de coragem. pé ante pé, aproximei-me.
Era um livro emprestado e, como manda a boa educação, abstive-me de romper sua virgindade... e nenhuma anotação fiz. Costumo ir fazendo intervenções, quase dialogando, com o autor ou com o tema, à medida que vou avançando na leitura...mas, como o livro não era meu, mantive-me proibida.
Não é um livro fácil.
Um romance em forma de relato.Pode-se dizer, um monólogo de alguém que encontrou um atento ouvinte ( que não emerge explicitamente) e Riobaldo Tatarana, agora fazendeiro, ex-jagunço, confiando na memória, "viaja" pelo seu próprio passado ao ritmo das lembranças não coordenadas pela coerência cronológica.
É aí que a coisa pega.
Um caleidoscópio das mais variadas cores...sombrias, ou luminosas, onde o leitor vê-se totalmente hipnotizado, tentando não perder o prumo.
"O narrador parece experimentar vários rumos, embrenha-se num atalho, marca passo, desvia-se, volta ao ponto inicial, recomeça a ação, parece fragmentar-se num labirinto de episódios desconexos." (Paulo Rónai)
Ouso dar-lhes um conselho:
Não entrem nessa caatinga plena de espinheiros, cactos, boqueirões, envolvidos numa aridez cheia de traições, demônios, friúmes, inseguranças e esperanças, não entrem sem um bordão.
Tenham consigo um lápis e vão registrando, nas margens, ao lado das expressões que lhes calaram fundo, algum comentário pessoal. Ou vocês correm o risco de ter que lê-lo sete vezes seguidas ( como eu o fiz) só para reeencontrar as pérolas que somem em 624 páginas.
Penei muito, até receber ordem do dono do livro (meu irmão), permitindo-me fazer meus registros, fazendo-me situar melhor entre as magníficas considerações de João Guimarães Rosa.
Agora, minha relação com a história de Tatarana e Diadorim possui uma certa intimidade que me dá o direito de admoestar, inconformada, a postura da protagonista.
Ah Diadorim, podia ter sido diferente... ( mas aí não haveria Grande Sertão: Veredas).
Veredas do Grande Sertão
Ah! Diadorim...
Foste intransigente demais.
Dia após dia, noite após noite, viste
a dor, a tortura, a ânsia, a loucura...
Viste o sofrer de quem te amava,
te queria, te desejava.
te falar
te segurar as mãos
te dizer ternuras
se aproximar o mais possível,
te servir
te acariciar
estar sempre ao teu lado
passar as mãos em teus cabelos
para que pudesses dormir ao seu abrigo,
Fazer silêncio apaixonado
para descansar este teu corpo cansado
das lutas e labutas do dia.
Olhar-te com olhar de mãe
que adora a cria.
Fazer dos braços um ninho
e do teu corpo, um passarinho.
Diadorim, foste louca
em negar tanta possibilidade.
Podias ter sido feliz.
Ter conhecido a amizade
no que ela tem de mais puro.
Deixado as almas se enlaçarem,
seguirem juntas sem temer escuro,
monstros, traições, maldades,
sem temer nem mesmo o demo...
Seguirem de tal forma iluminadas,
sendo, elas mesmas, o sol da estrada.
Ah! Diadorim,
Não há perdão para tamanho sacrifício,
Não há perdão para tanto desperdício.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Aline reapareceu...
Ontem recebi uma visita inesperada. Já há algum tempo ela não me aparecia: Aline (Dichte), minha amiga.
Chegou, sentou e entabulamos uma conversa que me pareceu meio sem entusiasmo...
Eu, na cozinha, limpava uma pequena toalha de plástico. De repente, percebi certa semelhança entre a toalha e a Aline, ali na minha frente: ambas se revelavam impermeáveis.
Aline conservava-se distante, nada a atingia em profundidade, nada a alterava, apesar das minhas provocações.
A conversa rolou por algum tempo e em determinado momento Aline, sem se despedir, retirou-se.
Só então vi, sobre o sofá, algo que ela esqueceu.Uma pequena sacola contendo alguns tabletes de chocolate, uma revista com data bastante atrasada...e uma folha de papel onde havia uma poesia escrita a lápis ( com data mais atrasada ainda - estava a completar dois anos de escrita).
Achei o texto poético interessante e, considerando a minha atual fase de aridez produtiva, senti ser providencial ter nas mãos aquele achado.
- Tanto faz...
Havia profunda indiferença na sua voz.
Coincidência, ou não, o poema se chama:
Não mais vou te procurar,
Tenho muito a te dizer
mas nada te apraz ouvir.
modulada por um fio,
era a mais doce alegria
que, à noite, me agasalhava.
Sem ela já não dormia.
Era o ponto final do dia.
Tua voz era a almofada macia
onde a minha alma-gato
se enroscava pra dormir.
a função de me ninar...
Ou àquela fiel canção
sempre, sempre, ao meu alcance.
Sempre pronta, a me esperar,
Sempre pronta a me escutar.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Canção de uma manhã ensolarada
Difícil é falar do Amor.
O Amor está no mundo
está na Vida
está no espaço...
Em tudo que nos rodeia
o Amor está!
Pois é o Amor a Alma do Universo.
O ínfimo e o máximo contêm o Amor
- O Amor contém e está contido -
Ele se encontra em nossas veias...
Por trás dos nossos olhos, nas estrelas...
Nos sonhos mais secretos, em cada canto.
O eco eterno da explosão inicial é o seu canto...
Nada do que existe, nem ninguém
- ainda não, ou já nascido -
escapa ao seu divino esplendor.
convive com a Tristeza,
com a Dor,
com o Sofrimento,
O Amor convive com o amor
por mais desencontrado que ele seja...
com a Inveja,
com a Mágoa,
com o Rancor.
Ah! O Amor!...
O Amor exige de volta...o Amor!
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Canto da quarta-feira de cinzas
O Carnaval é um planeta especial , no qual as pessoas se comportam também de maneira inusual.Todos se divertem numa orgia de solidão acompanhada.Tem-se a impressâo de que tudo é alegria... e que somos um bloco único onde todos se amam e vivem o êxtase do contentamento.
...Mas existe a quarta-feira- de- cinzas (que aqui na Bahia demora mais de se apresentar) e resta apenas o confete numa fantasia suada, amassada e abandonada...não serve para o ano seguinte.
Quem não participa dessa loucura coletiva sente-se em outro planeta e procura o que fazer, para também sentir-se vivo.
Eu, da minha parte, venho conversar com vocês... é mais gratificante.
Antes do beija-flor entrar no nosso circuito, falávamos de AMOR...Talvez valha a pena continuar no tema (só mais um pouco).
No meu segundo livro escrevi algo que passo para vocês.
Um poema que descreve um amor que morre de "morte morrida". Não há trauma, não há drama, não há nada que gere tragédia... É apenas uma constatação.
FIM
Um amor que desmorona
é ave abatida em vôo
mas que não morre do tiro
- não imediatamente.
Cai no chão e agoniza,
a vida esvaindo aos poucos.
Se debate, busca o ar,
da garganta, gritos roucos.
Já não vê os horizontes
descortinados em vôo.
Perdeu o ar puro dos montes.
Já não encontra saída.
Hemorragia incontida
faz sucumbir o alento.
Tudo vai ensombrecendo
na dor que o martiriza.
As forças se retirando
numa lenta agonia...
A desistência chegando
como um anjo que socorre,
trazendo alívio ao tormento.
A ave entende o momento.
Vê que é chegado o tempo,
se acalma...suspira...e morre.
Mas nem sempre as coisas acontecem tão docemente.
Há casos e casos... Há quem seja abençoado ( ou amaldiçoado) com sentimentos bem mais exacerbados... e é aí que a coisa pega!
Observem o que acontece com quem vê seu amor, seu apaixonamento, guilhotinado em pleno auge. A maldição do poeta é colocar em palavras o que deveria ficar sendo um segredo somente seu.
Encontrei essa poesia, que achei admirável...mas não gostaria de viver esse sentimento por demais dilacerante. Gostaria de tê-la escrito sem ter passado por tal tsunami...o que é absolutamente impossível!
Blues Fúnebres
Wystan Hugh Auten
Que parem os relógios, cale o telefone.
Jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais.
Que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do esquife com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima , em alvoroço,
escrevam contra o céu, o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto - um laço no pescoço -
E os guardas usem finas luvas cor de breu.
Era meu norte, sul, meu leste, meu oeste,enquanto
viveu. Meus dias úteis, meu fim de semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
Quem julga o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar as estrelas -são molestas-
Guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
INSENSATEZ

Loucura...estupidez...
inocência ou insensatez?
A verdade é que
nos deixamos enredar
em rede pior que teia
de astuta aranha.
Que seria o amor, senão isto?
A tarrafa nos alcança,
já não podemos fugir.
As suas bordas de chumbo
fazem-nos prisioneiros
...peixes sem direito de fluir
ao sabor da liberdade
do rio em que escorre a vida.
Gaiola dourada tolhendo
vôo de pássaros
outrora livres...
Qualquer pessoa sensata
reconhece toda a trama,
prevê o turbulento drama
de alguém enamorado
...mas quem
tem juízo suficiente
para não se permitir -nunca-
ser fisgado ou flechado
pelo infantil Deus do Amor?
Eu não conheço ninguém
(Pensando bem, conheço, sim).
...E, apesar de tais prisões,
ainda pensar-se feliz!
Tolice!
Bobagem!
Insensatez!
Essas verdades vêm sendo,
à exaustão , repetidas.
Séculos as têm escrito nas estrelas...
Mas, cegos, não queremos vê-las.
- São lições jamais aprendidas.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Abissal distância

Em amor,
sou gueixa,
mãos abertas, espalmadas,
serviçal enamorada
total disponibilidade.
Bandeja abarrotada
de frutas a escolher.
Árvore de sombra acolhedora
sou rede
sou lareira
em tempo de rigor invernal.
Sou riacho no calor
sereia de canto doce
fazendo adormecer.
Berço que aninha e agasalha
sou brasa que arde e queima
deixando marca infernal.
Mas…
Sem amor
Sou estrela inalcançável
Sou miragem no deserto
Fortaleza inexpugnável
Sou porta acorrentada,
acesso intransponível,
fosso cheio de serpentes.
Cerca de arame farpado
Nem um gesto acolhedor
Nada, nada a oferecer
Se a jornada
é um convite a dois,
há que ter devotamento,
fazendo nascer roseiras
onde só havia espinhos.
Fazendo cair a chuva
que vem emprenhar a terra
reflorescendo o caminho
…e a viagem se faz divina.
Aline Dichte
………………………………………………………………………………
Eis aí mais um poema da minha amiga Aline.
Enquanto ela não tem o seu próprio blog, vamos dividindo este espaço. É um prazer para mim e para os nossos leitores. Espero que seja do agrado de todos essa energia especial que dela emana.
Um beijo.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Permitam-me
Permitam-me falar de Amor...
Amar é bom, é muito bom!
Se a vida que vivemos tem seu lado obscuro, tem também seu lado luminoso, à espera de que nós possamos participar, irradiando tudo que de melhor possuímos... e o que de melhor possuímos é a nossa possibilidade de amar.
O amor, a ternura, a solidariedade, o caminhar juntos são a forma mais humana de fazer germinar sobre este mundo, sobre a nossa vida pessoal e comunitária, o bem que precisamos.
Que tal acompanhar-me nessa " quase oração "?

Preciso ardentemente da inocência
como a escuridão precisa da luz.
como a ave precisa do espaço para voar.

como a criança precisa da mãe que a alimenta.
em que a verdade seja plena.

ao menos por um dia!
Preciso crer que a maldade não existe
e confiar que o mundo ainda tem jeito.
Preciso acreditar que a humanidade
foi uma boa idéia.
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Quase não falei de Amor... É generoso, o Amor...e democrático. Está sempre pronto a invadir e colorir qualquer espaço disponível, qualquer coração aberto disposto a se entregar e aceitar suas
normas, às vezes surpreendentes.
NO LIMITE
Quando o amor vem chegando
tudo fica verdadeiro.
Aperto de mão é usina.
Flores cantam na janela.
Chuva tem gosto de bênção
e mesmo que seja junho,
calor é de fevereiro.
O coração se debate
como pássaro em gaiola,
batuca que nem pandeiro.
Nem dá para olhar nos olhos.
Rubro da face revela
o desequilíbrio interno
do corpo em nova cadência.
Arre! É quase desespero,
parece revolução.
É o mais colossal sintoma,
a fina constatação,
a mais completa evidência
de que a vida está viva
e pronta pra ser vivida
até o dia derradeiro.
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As ilustrações ficarão por conta de Anabel Cavalcanti...as fotos são dela!
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Milagre
Divina mão florentina intuiu
a divindade do toque
e o eternizou nas cores
da esplendorosa Sistina
Do toque - Faça-se a Vida!
...a Vida surpreendeu.
Do toque - Surja a Beleza!
...a cerejeira floriu.
Do toque - Que venha o Amor!
...as mãos se entrelaçaram.
Do toque - Que viva o Sonho!
...os olhos se entreabriram.
Do toque - Faça-se a Luz!
...cintilou o Firmamento.
Do toque - Que triunfe a Alegria!
...Milagre: aconteceu Você!
Definitivamente é um milagre cotidiano acontecer em nossas vidas,aquela pessoa, ou aquelas pessoas, que vem trazendo sorrisos sinceros, gestos de gentileza, afagos carinhosos...
melhor ainda se É VOCÊ essa pessoa que faz a vida de alguém mais feliz, mesmo que por alguns momentos.
É tão simples!
Veja o que diz Emily Dickinson:
"Se eu puder evitar que um coração se parta
Não viverei em vão.
Se eu puder suavizar a aflição de uma vida,
Aplacar uma dor,
Ou ajudar um frágil passarinho
A retornar ao ninho,
Não viverei em vão."
