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domingo, 4 de dezembro de 2011

Prometi que voltaria ao tema  "Minha infância"...

Quando o caminho já se faz longo e a paisagem vivida vai aos poucos perdendo a nitidez, há sempre algo que fica indelével. Na maioria das vezes é algum momento admirável, lembrança que se reproduz com forte dose de encanto. De repente nos apercebemos sorrindo.

O poeta define: "Vontade de ver de novo alguém sabido chamou saudade", e outro completa com delicada poesia, falando de "um sonho lindo perdido na madrugada, quando a saudade vasculhava a gaveta do coração"...

Esclareço que não compreendo minhas lembranças como sonho perdido, nem mesmo como saudade.

Parecem mais uma foto com som e imagem, melhor dizendo,um filme com trilha sonora, no qual um bando de pirralhos cantava com gosto, sob a batuta de um indisciplinado maestro. Não havia cobranças...O que nos movia era o prazer de conhecer belas músicas e cantá-las como as entendíamos. Não havia limites. Ninguém temia nem recuava diante do desafio de um idioma estrangeiro... Assim era, como nos parecia! ...e estranhos "dialetos" iam-se sucedendo nas animadas noites, após o jantar.

Bastava um disco ( e eram muitos!) na "vitrola" e a função começava. Espetáculo diversificado, não havia escolha prévia. Tudo era bom: tango argentino,  românticas músicas italianas, a imensa variedade das deliciosas, e às vezes dramáticas , composições do nosso cancioneiro popular...e até, (podem crer!) óperas.

Não havendo Dvds, ficávamos por conta da nossa imaginação. As aulas de piano, extremamente metódicas, não se aproximavam, nem de longe, dos nossos "saraus" improvisados. Crescemos apreciando a Música e todo o bem que ela nos traz. Teoria, solfejo, harmonia, bemóis, sustenidos, bequadros, são coisas para os iniciados, nunca nos seduziram.

Costumo imaginar que, se em vez de piano, tivessem nos aproximado do violão, as coisas, digo, a vida  teria tomado um outro rumo...

"Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar"...

Naquele tempo (tem gosto de coisa sagrada!) apreciávamos e curtíamos adoidado a voz de Mario Lanza e o ajudávamos a gargalhar na ópera Pagliacci...ou  La donna é mobile,  Ave Maria, Santa Lucia, Granada, eram  canja para nossas gargantas e o nosso entusiasmo. Carlos Gardel e Nelson Gonçalves tinham espaço cativo no nosso "palco": quanto mais dramático o tango, mais sucesso fazia! ...Coração Materno, Porta Aberta e "dá-lhe" Vicente Celestino que, na preferência de meu pai, perdia para Francisco Alves. E tinha mais Orlando Silva, Carlos Galhardo, Silvio Caldas,  para momentos de seresta!

Dalva de Oliveira, Ângela Maria, benditas entre as mulheres. Ima Sumac, a princesa inca, com sua voz única! Dizia-se que ela aprendera a cantar indo para a floresta imitar os pássaros...e a nossa imaginação a acompanhava em suas andanças.

Não, não é saudade, é revivência. Basta que se ouçam  novamente essas canções , o tempo retorna e o filme começa.


A música clássica - assim eram chamadas aquelas tocadas pelas grandes orquestras sinfônicas recheadas de violinos,  violas, cellos, oboés, fagotes,trompetes e tubas, piano, harpa e o pretencioso prato, pontuando o arrebatamento! - hoje "dita erudita", escreveu um capítulo à parte na minha memória musical e afetiva.

Sei que não havia o objetivo de nos fazer mais "cultos" e sim mais sensíveis ao que nos torna felizes.

Grande homem, o nosso "maestro"!

Deixo para vocês um pouco da minha recordação.



Numa tradução livre:


Representar!
Ainda preso ao delírio não sei o que digo e o que faço!
E ainda...é do ofício...Esforça-te!
Bah!! És um homem? Tu és palhaço!!
Veste a fantasia e pinta o rosto de branco
As pessoas pagam e querem rir...
Se Arlequim te rouba Colombina,
Ri! Palhaço!
Alguém há de aplaudir.
Transmuta em graça o espasmo e o pranto!
Em soluços , o desgosto e a dor!
Ah! Ri palhaço! ...sobre teu amor dilacerado!
Ri da dor que envenenou teu coração!
Achávamos esta interpretação O MÁXIMO!!! E continuo achando!
Por outro lado, encontrei este vídeo maravilhoso e partilho com vocês, agregando delicadeza ao período festivo do ano que se finda.




Boas Festas para todos e um Novo Ano pleno de realizações!



segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma nova manhã

Apenas uma segunda feira como tantas outras...e no entanto, quanta diferença!

O dia amanheceu tão lindo! Parece que somente hoje o Supremo Artista reencontrou a fórmula da manhã perfeita.


Após dias e dias, e mais dias ainda, de chuva torrencial, céu cinzento e doentio, uma melancolia generalizada ensombrecendo as plantas, o mar, os animais e as pessoas, enfim reaparecem o sol e um quase esquecido céu azul, num clima de renascimento envolvendo tudo.


As nuvens branquinhas percorrem o espaço numa brincadeira de crianças e a brisa suave acaricia, sem desmantelar, as flores e os cabelos.


É como se as manhãs de setembro tivessem retornado... os pássaros recuperaram seus cantos e uma expectativa de esperança brota, com força, no coração das pessoas.


VAMOS CANTAR:





sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pingos de auto-ajuda


Do que a vida tem me ensinado numa caminhada que parece longa, mas que percebo agora: foi rápida! Muito rápida!

É preciso cuidado.

É preciso cuidado para não avançar além dos limites…e é preciso atenção para reconhecê-los – eles são, na maioria das vezes, internos, pessoais.

É preciso o cuidado de não dizer palavra forte para ouvidos fracos.
É preciso o cuidado de não exigir…pior ainda se a exigência for maior que as possibilidades.

É preciso ter cuidado de olhar por onde se pisa…um caminho sempre inclui a possibilidade de retorno, mas talvez as dificuldades sejam imensas ao tentar a meia-volta.

Arriscar demais é perigoso…contudo, estagnar-se é suicídio lento.

A coragem permite avanços imprevisíveis, mas só a concentração permite alcançar o alvo.

A vida passa rapidamente, é preciso treinar os sentidos e a sensibilidade para vê-la no que nos oferece de melhor…porque , o pior, este nos invade sem pudor,sem pedir licença.

Não se trata de fechar os olhos para o que nos magoa e , sim, não permitir que isto sobrepuje o que nos faz feliz.
A face escura e a face luminosa da vida nos envolvem, fazendo do cotidiano um jogo de escolhas.
O que nos faz felizes é sempre muito simples, embora o simples seja o de mais difícil alcance…nós o confundimos com o insuficiente, e o rejeitamos.
Fazer do simples um método de crescimento exige criatividade (de preferência sem nenhuma ansiedade).

O cotidiano é tido como banal, sem atrativos, sem glamour, quando não, sofrido. Visão de quem olha para a vida através de uma névoa dominada pelo menosprezo. Então a vida, para estas pessoas, mostra-se assim mesmo (questão de reciprocidade!).

Atentar para a vida através da claraboia do prazer e da criatividade, certamente, atrairá a luz que faltava. Se, em vez de uma simples vigia, uma janela é escancarada, aí então, tudo pode acontecer: desde a brisa benfazeja, os bons ventos, os chuviscos, as chuvas fortes; a luz do sol, dos raios e relâmpagos ; o som dos pássaros, das gentes, dos trovões, enfim, da vida em plenitude!
Todas as cores são belas porque o arco-íris é belo!

É assim que a vida se apresenta para todos,mas nem todos assim a enxergam.

São, estas, reflexões e experiências pessoais... talvez não lhes sirva para nada… Talvez.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Chilenos... eles sobreviveram!

Ainda somos humanos!... é a grande inferência.

Todos os prognósticos eram adversos porque o diagnóstico era aterrador.

As circunstâncias se acumulavam e se equilibravam numa fragilidade de castelo de cartas prestes a desmoronar definitivamente.

O assombro externo só encontrava similaridade ao provável estado de estupor dos principais personagens do drama acontecendo e da tragédia que se prenunciava.

O ineditismo do acontecimento não permitia previsões nem contra nem a favor. Mas as dúvidas eram avassaladoramente dominantes. As ameaças reais e imaginárias eram tais que poderiam paralisar e engessar a movimentação e a criatividade geradoras de solução. Um túmulo a quase 700 metros de profundidade era o desafio que se revelava como um problema a ser resolvido, numa atitude (quase) acima da capacidade humana. Em luta contra o tempo, a altura de um prédio de 220 andares deveria ser vencida para que o resgate acontecesse.

A cada momento as dificuldades iam-se revelando...e as dúvidas se concretizando.

Era necessária a perfuração...e o que seria encontrado?

Rochas indevassáveis, ou frágeis, além da conta?

Lençóis freáticos com  possibilidade de inundação?

Exalação de gases subterrâneos contaminando o ar já pouco saudável, no qual o oxigênio e a temperatura adequados teriam que ser manipulados e conseguidos  através  do conhecimento técnico da equipe de salvação?

As dificuldades eram tantas que ultrapassam o quase absoluto desconhecimento de quem lhes escreve, neste momento. Desisto de enfocar esses problemas uma vez que poderia derramar sobre aqueles que me leem um monte de palavras insensatas e bobas. Sou apenas uma escriba ignorante e emocionada. Dois atributos que não me conferem validade.

E aqui fico a louvar, admirar e bendizer os resultados obtidos pela equipe de salvação em todas as etapas  do processo.

Mas, perdoem-me, não poderia deixar passar em branco o sentimento que me dominou e me dominará por longo tempo, creio mesmo que por todo o meusempre(tão limitado!) - Sinto-me honrada em fazer parte da comunidade humana! Se sou semelhante àqueles homens  que puderam conviver em condições não somente adversas, mas aterrorizantes.

Temos certeza que, nos primeiros 17 dias, a falta de perspectivas era a cegueira dominante àquele desafortunado grupo. Nada viam... nada sabiam... nada esperavam, talvez. E, no entanto não se encaminharam para a selvageria, para o desespero, para o desequilíbrio da certeza do desfecho trágico... "É impossível não ficar louco aqui dentro..." escreveu um deles. Contudo eles conseguiram conservar a lucidez.

Eles esperavam... e construiam, dentro de suas limitadíssimas possibilidades, o que lhes era permitido, para conservar e fazer crescer a sua própria hominização. Alguém já definiu: "...palavra que nenhum animal faria tal coisa...somente o bicho-homem seria capaz dessa conquista!"

Eram humanos, sim , lutando para tornar coletiva, ao seu desventurado grupo, a característica marcada pela solidariedade, pela empatia, pela compaixão, pela generosidade.

Cabe-me registrar o que sinto: sou humana, faço parte dessa honrosa categoria dos seres viventes da qual faz  parte  essa fatia que o mundo inteiro admira e aplaude.

Que as consequências advindas deste acontecido não venham diminuir a glória do inédito. Que o uso dos fatos não atinja o nível do abuso...em quiasquer dos vícios (econômicos, políticos, empresariais , midiáticos...) costumeiramente  vividos por uma humanidade  tão necessitada de bons exemplos.

Bom seria aproveitarmos , ao máximo, a lição!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Como conquistar a supremacia da Paz… SE

… as religiões se digladiam
… as gerações se rejeitam mutuamente
… as nações reforçam suas fronteiras
… os diferenciados poderes competem pelo seu próprio domínio
… as economias só sabem conjugar o verbo sugar
…o ponto fulcral ante o desconhecido é  a  desconfiança
… o sentimento dominante nos relacionamentos é o medo
… a ambição humana é insaciável
.. cada indivíduo e, por extensão, cada nação, acredita ter o monopólio da verdade
… a indiferença ou o desprezo é, muitas vezes, a retribuição ao gesto da mão estendida
… muitas vezes, a mão estendida esconde uma arma mortífera
Diante disso,  pequenas guerrilhas particulares e grandes combates políticos ou militares pipocam em todos os quadrantes deste nosso sofrido planetinha azul.
”Quantas guerras terei que vencer por um pouco de Paz?”
Bem sei da importância dos cientistas sociais que analisam causas e efeitos da funesta necessidade bélica dos seres humanos.
Claro que reconheço a competência desses cientistas que, com sua terminologia adequada, escrevem páginas e páginas esclarecedoras sobre o assunto. Nem lhes chego aos pés!
Mas há um ponto, um único ponto, um pontinho de nada, que considero de suprema importância, e sobre o qual eles nunca puseram os olhos.
E eu não posso me calar!
A POMBA como símbolo da Paz. Eis o que penso:
Presença incômoda
Antipáticos pombos agitados
invadem sem licença os telhados
sem terem sido convidados.
Fazem incômoda algazarra,
(pois eles são passarões)
espantando os passarinhos
que muito antes chegaram
para encantar o espaço
colorindo e musicando
as terras do meu jardim.
- Que tremenda diferença
diante dos colibris!
Pior que a chuva de excremento
(já nem posso usar a rede)
é esse canto agourento
que não significa nada,
só serve pra azucrinar…
Uma idéia me ocorreu:
Acho que a Paz não se anima
a descer por sobre o mundo
devido ao rosto constrangedor
que lhe foi atribuído.
Um símbolo que emporcalha tudo!
Pai do Céu que me perdoe
…do pombo quero distância!
E me lembre de, jamais,
amar como dois pombinhos!
Lamento se, de alguma forma, desagradei os meus leitores… porém tenho, como advogado de defesa, um alguém cuja voz possui um valor inestimável:

“Deus sabe que, entre gatos e pombos, eu sou francamente pela primeira espécie.Acho os pombos um povo horrivelmente burguês, com seu ar bem disposto e contente da vida, sem falar na baixeza de certas características de sua condição, qual seja de, eventualmente se entredevorarem quando engaiolados.”

(Vinícius de Morais)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Mário Quintana, um Mestre...



Senhoras e senhores,
continuo minha peregrinação pelas "causas indefensáveis".

Talvez esse tempo de ventos uivantes e uma chuva que não passa, nos obrigue a uma interiorização com sabor doentio, quando, então, o nosso "porão" sofre um processo de desinfecção obrigatória.
A água que cai, vem lavando recantos esquecidos. É um momento próprio para reconsiderar...

Minha terra é chamada "Ilha da Fantasia" devido ao sol e à música que nela imperam...são sua alma e seu sangue...

De repente, uma sombra recobre tudo. E o sentimento da gente vai junto...E o jardim também...

Pensando no jardim e nas pessoas, levanto mais uma bandeira de reconciliação.
Vejam o que diz Mário Quintana:

O que mata um jardim
não é mesmo alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim
é esse olhar vazio
de quem por ele passa, indiferente.

... e eu completo:
Creio que também
é esse olhar que mata
as pessoas que perpassam
à nossa volta, mendigando atenção
...e nem são vistas!
O olhar indiferente
as torna transparentes
...e mortas!

Dedico esse post a Bruna...uma pessoa que a vida se incumbiu de maltratar e fazer dela um alguém que, por onde passa, sofre rejeição.
Define-se como "ela", embora tenha nascido "ele".
Aproxima-se das pessoas para pedir ajuda, mas o seu aspecto não colabora. Quase sempre sujo, dentes em último estágio de destruição, cabelo desgrenhado, uma magreza inquietante, reveladora do mal que o consome.


Quando o recrimino pelo seu aspecto desleixado , ele retruca:
" Mãe, não tenho nem dinheiro para comprar sabão para lavar as minhas calcinhas!..."
Tenho certeza que, apesar de tudo, ainda lhe resta uma boa dose de humor:
"Estou operada...retirei o útero!..."
Ele se torna grosseiro e até agressivo se lhe negam a esmola...mas não ultrapassa as palavras.

Eu já sofri muita incompreensão pela atenção que lhe concedo.

Não poderia agir diferente!

Ele retribui vindo me ver, sempre tomado banho, cabelo cortado, roupa lavada...só as unhas estão sempre horríveis! (mas ele as esconde para que eu não as veja...)

Um dia ele me disse: "Sabe por que eu gosto da senhora?"
E ele mesmo respondeu: "Porque a senhora me olha!"

Bruna me adotou como "mãe"... e não se sente nem um pouco incomodado em apresentar minha filha como sua "irmã", onde quer que a encontre...
Fala isso com uma certeza comovente.

Eu bem sei que o rumo que sua vida tomou tem muito da sua própria responsabilidade. Mas tenho certeza maior ainda - muitos foram os que colaboraram para transformar uma criança linda e saudável, ou o cozinheiro competente que outrora ele foi, naquele coitado que depende da compaixão dos outros.

Uma última palavra
Guimarães Rosa:

"Eu sei: nojo é invenção do Que Não Há para estorvar que se tenha dó."

sábado, 26 de junho de 2010

Em dia de Aniversário



Novamente a areia da ampulheta cumpriu sua função de marcar o tempo.
Olhos no calendário. Mais um ano se esgota no cálice da vida e a incontrolável dupla tentação mais uma vez se apresenta: medir, contar, avaliar e, pior ainda, qualificar os dias que se foram...ou, sob outro enfoque, querer estabelecer metas para o próximo ano que ora bate à porta. Bobagem em ambos os impulsos.
Melhor não abrir champanhe para nenhum dos dois casos...pode ser um gasto inexpressivo e inútil.
Mais de uma vez já declarei que convém exorcizar

A BALANÇA
Para refletir a própria história
melhor usar o bom senso:
Distância da balança da justiça.
Aqueles dois pratos rigorosos
que, sem condescendência,
são juiz do acontecido.
Tribunal sem misericórdia,
sem contemplação, impiedoso,
contabiliza o sim e o não,
medindo e pesando o que passou.

Em um dos pratos,
os gloriosos momentos...
No outro prato o desengano,
a dor, o sofrimento,
todos os mistérios dolorosos.
E a síntese da história
ali se vê retratada
trazendo trágico carimbo
marcado pelo selo do irremediável.

Ali não cabe
nem mesmo o arrependimento,
território vedado à esperança.
Pra que medir e contar o que navega
no oceano do sem jeito?
Para que reviver desilusões
erros, desencantos, desencontros,
decisões calcadas na estupidez?

Tampouco convém confiar demais no
Vir- a- ser
Por ínfimo que seja o vir-a-ser,
é lá que se projetam as possibilidades.
De lá podem surgir compensações.
No que virá se forja o talvez.
Lá o imponderável,
o imprevisível,
o inesperado,
talvez tramando alguma teia...
Talvez boa notícia...
Sem que o saibamos, o inaudito...
Quem sabe...talvez...

As inferências alcançadas podem invalidar muitas ilusões

Que vida?
Quantos dias cabem
no alforje que carrego às costas?
Quantos passos medem
as pegadas que deixei pra trás?
Qual o peso do ar
que desde sempre respirei?
Por quantos toques o pulsar
deste triste coração
já anunciou que vive?

Será que vivo?
Será que tenho vivido
todo o tempo e o espaço que percorri?
Tantos foram os dias
cobertos por mortalha...
Tantos foram os passos
que levam a lugar nenhum...
Tantos foram os soluços entrecortando
e impedindo a inspiração...
O coração tantas vezes louco,
ao ritmo de tambores fúnebres.

Contabilizando assim, vivi tão pouco!

No entanto, se alguém precisar de estímulo, resta um último consolo, uma provocação:

Talvez

Grandes são os desertos? - Sim!
Tudo é deserto? - Talvez...
Talvez...possibilidade entre o sim e o não...
Movimento entre o erro e o acerto.
Resistência frente ao ir e vir.
Dúvida que consome o passo ...
O deserto aí está...
São grandes seus espaços,
imensa a sua solidão,
tremenda a ausência da certeza,
lento o momento da decisão...
Mas provocante é a proposta
do alcance das lonjuras do horizonte...
a oferta da viagem,
embriagador convite à aventura,
o desafio de encontrar o oásis
...superando o desconcertante
encontro com a miragem.

Então vamos acender a velhinha, digo, velinha do bolo e iluminar os dias que se seguirão! Cantem comigo mais uma primavera (!) conquistada...







domingo, 27 de dezembro de 2009

ÚLTIMO DOMINGO DO ANO!


Domingo

Hoje é domingo

Dia do consagrado.

Tudo deveria estar

no lugar mais adequado.


O sorriso no rosto das crianças

dos velhos

e sobretudo dos adultos


- a eles cabe

a responsabilidade

do humor da humanidade.

A comida nas panelas

de todos os lares.

Um cobertor para afastar o frio

na necessidade.

Águas limpidas serenas

correndo em todos os rios

- aí estão para matar as sedes.

As aves voejando em céu de anil

cantando colorindo espaços.

A chuva caindo onde fosse preciso.

Flores espontâneas

em todas as campinas

brisa leve e limpa

fazendo-as dançar.

Deveria haver

campos floridos sim

circundando todas as cidades.

Uma oração em cada pensamento

e a prece sendo

de agradecimento.

Que pena!

As coisas não estão assim!

Melhor então

que a prece seja

pedido de perdão.

sábado, 13 de junho de 2009

PASSADO...PRESENTE...FUTURO...

As viagens através do tempo são sempre enriquecedoras...O passado desvela lembranças que nos devolvem momentos, nem demasiadamente tristes, nem intensamente alegres...São instantes envolvidos por uma membrana de cores suaves, impedindo-os de se tornarem aquilo que realmente foram,no seu momento próprio.São como fotos desbotadas...

O presente fala alto...Pela sua constituição, os fatos, os sentimentos, os desejos
recentes ocupam maior espaço no nosso interesse, na nossa atenção.
E, sem essa de dizer que o presente já passou quando acabar de escrever esta frase!
O presente é um embrulho que desenrolamos devagar para aproveitar ao máximo as surpresas que ele traz em si...ou não se chamaria presente.

O futuro é uma espera...Só podemos possuir dele uma vaga idéia...ou um desejo.
Cabe-nos esperá-lo, predispostos ao inesperado.

"Os deuses criam-nos muitas surpresas:
o esperado não se cumpre, e ao inesperado um deus abre o caminho."
(Eurípedes)
O alicerce do futuro, por mais que o ser humano tente controlá-lo, na sua vaidade incontrolável, o alicerce, repito, é a incerteza.

Nas histórias pessoais, aí sim, há uma só e única certeza...mas ninguém gosta de falar sobre ela.Uma pena!

BAÚ

Um velho baú fechado
no sótão abandonado:
Ali se guarda de tudo.
O que talvez ainda preste
O que já não serve mais.
Fantasias amassadas
lembranças emurchecidas
de um passado saboroso.

Um par de brincos, quebrado
-já foi jóia preciosa.

Um vidro de perfume cheio
de um vazio remissivo.

Duas flores ressequidas
dentro de um livro, perdidas,
elos de amor febril
- hoje não têm importância.

Fotos velhas, desbotadas,
e, talvez, algumas lindas!
...que ainda fazem ressonância.

Máscaras, máscaras, máscaras
de carnavais superados.
Coisas tristes, agradáveis,
engraçadas, descartáveis...
Uma mixórdia encantada,
o baú que descrevo a ti.

E esses poemas-mix
que no momento te escrevo.

***********************************

O presente está envolvido pelo espectro da POESIA...

Não sei...Não sei...

Talvez
fazer poesia seja só regurgitar
(pra não dizer vomitar)
o que, durante certo tempo,
ou durante a vida inteira,
tenha sido ruminado...

Ou parir
filho gerado com paciência...
e cuidado.
Ou revelar um segredo
durante anos guardado
em muito bem fechado cofre.

Talvez seja desnudar a alma.

Talvez
abrir janelas fechadas
para que nova paisagem
assuma seu lugar no olhar...

Talvez
cantar canção nunca cantada
...ou apenas repetida...
repetida...repetida...

Seja o que for,
fazer poesia é
(por vez primeira ou de novo)
- VIVER!

**************

Depois...

Quando minha palavra se esgotar
e conduzir-me, inevitavelmente, ao silêncio,
estarei então livre, pronto para partir
deixando atrás de mim um rastro
que já não me pertencerá.
Deixando o caminho aberto
pra que alguém, em sua busca,
serenamente se oriente,
sem nem sequer perceber
quem foi que passou na frente..

Assim deve ser.