sexta-feira, 29 de maio de 2009

Ariadne II

Santiago do Piripiri - Olympus 078-1 

Você já deu atenção
a uma aranha tecendo a sua teia?
Que extrema paciência
Que passos sincronizados
Que dança maravilhosa
Que leveza de ação
Que gestos tão delicados

E a teia vai crescendo
urdindo renda formosa
do centro à periferia
Não há erro... nada falta.
Cada toque é uma promessa
para o toque que há de vir.
Só de fios e vazios se faz
a mais linda obra de arte.

Quando, por fim,
o desenho se completa
um mundo desabrochou
inteiramente capaz
de atingir seu esplendor:
quando o sol se espreguiça
e abre os olhos lentamente
revela jóia preciosa
ornada pelo orvalho da manhã.

Minúsculos arco-íris
na prisão iridescente
- não há nada mais bonito -
É um colar de diamantes
Para quem, de olhar atento,
flagra a efêmera beleza.

Quem dera nos coubesse a nós
construir a nossa vida
com a mesma simetria,
da mesma forma sublime,
criando a mesma harmonia.

 

PS- Essa vida previsível  seria muito monótona…

“O bom seria que pudéssemos transitar do caos à simetria ao nosso bel prazer.”

OUSADIA

Gosto de transgredir,
Não por gosto ou teimosia,
mas por essência.
O pré-estabelecido me aborrece,
o já conhecido me sufoca.
A multiplicidade da vida me encanta.

As infinitas faces me fascinam.
Os pequenos riachos me convidam
e hipnotizada me aventuro
a descobrir riquezas inesperadas.
Preciso garimpar as gemas escondidas.
E ver faiscar em minhas mãos
tesouros que ninguém reconhece.

Santiago do Piripiri 117-1

 

 

 

 

 

 

 

É difícil para um poeta conviver com suas próprias incoerências…

quinta-feira, 21 de maio de 2009

AS CARAMBOLAS...e outra poesia...

Eis-me aqui, voltando com a mochila cheia de saudade...Estive relendo a última postagem e considerei o tanto de densidade que ali se revela. As asperezas da vida...
Tentemos ser mais leves, na certeza de que leveza ou densidade, muitas vezes, é apenas uma questão de ponto de vista.

Hoje conto para vocês uma singela história que chegou ao meu conhecimento.

É a história de alguém que, muito criança ainda, tão criancinha que nem verbalizava corretamente as palavras, um dia desapareceu de casa e, numa linguagem tatibitate, cobrava a atenção dos adultos:

- Xocoio! Tou moiendo!!

Tal desespero, repetido e repetido, como um disco arranhado, colocou as pessoas da casa em polvorosa:

- Meu Deus! Onde estará morrendo esta criança?

Seguindo
o som, a mãe foi encontrá-la no fundo do quintal, caída de costas sob uma caramboleira, com as mãozinhas cheias de carambolas pecas...


Morrer, sim! Largar as carambolinhas, jamais!


AS CARAMBOLAS

...e as carambolas pecas
enchiam as mãos da criança...
Eram, a seu ver, seu tesouro
e sentia-se morrendo,
mas não largava o que guardava
pois era tudo que tinha!

Era seu bem precioso.
Somente carambolas pecas
...jamais iriam medrar,
prosperar ou progredir
...jamais amadurecer.
Eram só carambolas pecas...
mas foi o que a vida lhe deu.
Não serviam de alimento
mas serviam de consolo
como pedras preciosas
de valor afetuoso.

No seu grito de socorro,
a tolice, a insensatez:
morrer, se preciso fosse,
mas, nunca, jamais, largar
o bem que logrou herdar.

A vida passa
A criança cresce
e as mãos continuam cheias
daquelas carambolas pecas...


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Por estes dias estive meditando sobre a Vida e a Morte (exercício, aliás muito comum em meus pensamentos).
Este assunto nunca me deprime, é-me muitíssimo natural...E foi um momento sobremaneira adequado, uma vez que , deixou o nosso convívio uma irmã muito querida...
Pensar na Vida deveria sempre incluir o seu clímax...pena que nem todos pensem assim.

O giro que Chico não viu

Viver, movimentar-se...
Viver: girar...girar...girar...
Giram planetas no espaço
Giram cometas, nebulosas,
giram os astros no céu
em órbitas controladas...

Em espiral se movendo
Via Láctea piscando
acolhe a tribo do Sol
no seu giro singular...
Giram crianças na roda
Giram pares numa valsa
Gira o pião na mão
Gira o carrossel no parque
atraindo a multidão

...e há o canto da ciranda
que acompanha a sua dança
trazendo giro suave e manso
em sereno circular...
Dar as mãos, sentir presença,
cadenciar cada passo,
harmonizar movimento
indo, voltando, avançando
em ritmo lento dançando
é, talvez, no universo,
o mais soberbo girar.

Dêem-me as mãos, vamos dançar!

***
"...que a vida é uma dança onde não se escolhe o par"


segunda-feira, 11 de maio de 2009

...Ainda Florbela Espanca

...apesar de toda água que desce sobre a minha terra, o meu tema permanece:

FLORBELA ESPANCA,
poetisa alentejana , natural de Vila Viçosa, deixou a vida (por vontade própria)
na mesma data em que à vida compareceu.

Marcada pelo paradoxo, Florbela vivia em constante conflito entre o que idealizava e o que conseguia realizar.
Seus sonhos, desejos, sentimentos, pensamentos, atitudes
e realizações se digladiavam em uma arena constante.
...E o resultante: sofrimento!

"
Ninguém é definível numa só dimensão, num só conjunto de qualidades. Todo ser é uma intersecção de adjetivações diferentes e até opostas" (Diogo de Souza, filósofo português).

E assim se pode dizer de Florbela...


No último ano de sua vida escreveu um diário. Entretanto o utilizou de maneira escassa e, sobre ele, ela afirma não ter qualquer objetivo, mas espera que..."Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me."

Eu

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia

E, mesmo que que o soubesse, não o dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via !

................................................................

Assim, jovem, sofrida, ao que parece, carente não somente do amor de alguém, mas também do amor a si mesma (para alguns analistas da sua obra isto se revela como o transbordar dos limites de uma personalidade única)...vai por aí , a poeta.

Na vida nada tenho e nada sou;

Eu ando a mendigar pelas estradas...
No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber pra onde vou !


Esta ausência de si mesma, entretanto, não foi maior que o desencontro amoroso em que viveu.


A linguagem poética é muito forte e nos atinge de várias maneiras...
Há versos possuídos da maciez da pérola... e os nossos "dedos" se comprazem em afagá-los, deliciados com a sua delicadeza...

"O contrário também bem que pode acontecer
"(Gil)... E há versos que, ao tocá-los podemos queimar as mãos...
São como pedras vulcânicas recém saídas do ventre da terra. Há algo de corrosivo em suas palavras... Um ímpeto que, por ser intempestivo, pode incomodar.

Com certeza os versos de Aline Dichte se revelam neste código, algumas vezes ...
Que disse ela a Florbela Espanca?
Que diálogo emocionado resultou desse confronto?
Que versos da portuguesinha provocaram Aline?

Talvez este soneto?

Frêmito do meu corpo a procurar-te,
Febre de minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,

Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel
que nada existe que a mitigue e a farte!...

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma

Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar, que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

A reação de Aline não se fez esperar:

PARA FLORBELA

Não gosto de ti, mulher.
Mulher que espalha versos...
Versos que fervilham amor,
Amor que é muito mais que amor.

Há uma química cruel
- de violência, de mágoa, de alegria -
disfarçada de delicadezas.
Uma só gota do que dizes
corrói toda lucidez.

Por seres fiel espelho
custa-me muito encarar-te.
Escancarar, despudoradamente,
a alma feminina,
como tu fazes, é traição.

Não quero ouvir-te,
nem ver-te
nem saber-te, ali parada,
no limiar da minha própria verdade.

Amar assim, loucura, é o que é...
Mais que loucura,
é quimera, é fantasia.
Ao olhar teus olhos,
em dores me consolo:
Amar assim só serve à poesia !

Eu, Dinah, gostaria de compreender e ajudar ( que anacronismo!), e fiz

CRÔNICA para FLORBELA

Pobre pequena poeta portuguesa...
Linda... Jovem... -" Uma flor! " vaticinou alguém
vendo-a recém-nascida
...mas , como uma flor, consumiu-se
em fugaz primavera.

Uma vida pela frente,
deixou-se abater...
Deixou-se minguar...
e quase enlouquecer.

A miragem incansável
as suas forças minou.
Que falta de lucidez !
Injusta consigo mesma
viu, fora de si, sua sorte.
Supôs, além de si, um ideal
sem perceber que,
buscando o inatingível,
perseguia a própria morte.

Nesse caminho sem volta
a bela flor se perdeu.
Tanta vida ao seu redor,
ela, morbidamente, assumiu
a dor de sentir-se só.
E, em vulcão incontrolável,
explodiu a sua dor
em palavras formidáveis.

Amor não correspondido
é ilusão do coração.
Veneno que corrói a alma.
Alma que, por não se conhecer,
não se compreendeu capaz
de vencer até mesmo o mundo,
se necessário se fizesse.

Romper amarras,
sentir-se livre e seguir,
completamente inteira
em uma outra direção.

Que pena, Florbela!...
Perdeste a vida a esmo.
Não tiveste a lucidez
de experimentar, sorrindo,
o " Conhece-te a ti mesmo !"





sexta-feira, 1 de maio de 2009

FLORBELA ESPANCA

Na minha caminhada recolhendo e replantando sementes de emoções e sentimentos vividos por outros poetas, quero chegar perto de Florbela Espanca.
Quem nunca ouviu falar nela, certamente já a cantou junto com Fagner:
" Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Ou com Elimar Santos:
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

(.......................................................)

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente.

José Régio (aquele do Cântigo Negro) assim nos apresenta o trabalho de Florbela:
" A sua poesia é dos nossos mais flagrantes exemplos de poesia viva. Quero dizer que toda ela nasce, vibra, e se alimenta do seu muito real caso humano;
do seu porventura demasiado real caso humano."

Sobre os sentimentos da poetisa, ele continua:
"Florbela viveu a fundo esses estados, quer de depressão, quer de exaltação,quer de concentração em si mesma, quer de dispersão em tudo, que, na sua poesia,
atingem tão vibrante expressão."

Morrendo aos 36 anos deixou registrado, sem medo, o seu dramático mundo interior... Sua feminilidade exacerbada. Sua fome de Infinito, de Absoluto, sentindo-se, entretanto, escravizada à sua identidade com o mundo que a envolve.

Seu tema favorito: o amor humano, que buscou desesperadamente, numa des-ilusão de sentir-se batendo sempre em portas fechadas.

Novamente com a palavra José Régio:
"Impossível lermos Florbela Espanca sem reconhecermos sua inquietação, uma sua insatisfação, que vão se manifestando como irremediáveis. Foi o que chamei de insaciabilidade.
A princípio, ou de longe em longe, através de toda a sua obra, decerto ainda alvorecem os sonhos e as expectativas, ou chispam as rubras horas de sensualidade feliz, ou resplandecem momentâneos oásis de orgulhosa plenitude.
Muito poderosos ( ou muito violentos ) são os instintos pagãos de Florbela.
Ainda bem que não temeu ela de os cantar em versos de admirável intensidade.
No fim e ao cabo, porém, todos esses ímpetos e satisfações não duram senão o instante que lhes coube."

Sempre através do soneto ela delira suas inquietações:

Vaidade
Sonho que sou a poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada !...

E sua autodefinição se estende:

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada...a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte !
Alma de luto, sempre incompreendida !...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste, sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou !

Sem me conter, precisei colocar-me ao lado desta mulher que traz, em si,muitas angústias do universo feminino, e escrevi,para Florbela :

Ressurreição

Por que, criança (tão criança ainda)
mergulhas em poço
de profundo desalento?
Tudo em ti é tão viçoso,
tão bonito!...És linda!

Em que maldito espelho distorcido
projetas a tua imagem?
"Olhar de Campo Santo"?
"Magras mãos...Dedos envelhecidos..."?
"Vaga roubada ao Mar da Desventura"?

Estás louca, mulher (criança ainda)?
Não vês o mau presságio
na voz que, em ti , fala?
Não vês a atração da pérfida loucura?

Não esperes ver na morte
a porta da ventura...
Nem encontrar, no Outro,
o brilho da tua sorte...

Rompe as cadeias do porão escuro,
Abre tuas asas...Abre a janela e voa !
Ressuscita em ti a tua juventude
que nunca te abandonou
...e ouvirás a Primavera
que em ti ressoa !...

................................................................................................................

Este tema é grande demais para se encerrar aqui.
Voltaremos a ele...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

SERTÕES...e SERTÕES

É difícil para o nordestino que cresceu ouvindo "causos" de seca, de jagunços, de tropeiros e boiadeiros, com suas roupas de couro, cobrindo, como uma segunda pele, todo o corpo, evitando assim que dilaceradas fossem as carnes, pelos espinheiros da caatinga...é difícil imaginar os longes do cerrado.
Entretanto, por ali corre o São Francisco, misturando tudo: destinos, dores, sustos, esperanças...

No cerrado pode-se pensar em várzeas, serras, campinas, matas, riachos, lagedos, pensar em terras avizinhadas onde florescem, em abril, ciganinhas roxas, e a nhiíca e a escova, amarelinhas...e as caças..."a carne, de gostosa, diverseia."
"Ouvir o trovão de lá, e retrovão, o senhor tapa os ouvidos, pode ser até que chore, de medo mau em ilusão, como quando foi menino.O senhor vê vaca parindo na tempestade.(...)A serra ali corre torta."
E recordam-se terras outrora vistas e para onde se quer voltar.
"Perto de muita água, tudo é feliz."

Qualquer nordestino cisma, invejoso de tais conhecimentos...
O cancioneiro nordestino é o lamento desejoso de outra sina.

(...) Pelas sombra do vale do ri Gavião
os rebanhos esperam a trovoada chovê
Num tem nada não,também no meu coração
vô ter relampo e trovão
minh'alma vai florescer
....................................................
Meu dia inda vai nascê
E esse tempo da vinda tá perto de vim.
Campo Branco ( Elomar)

(...) a seca fez eu desertar da minha terra
mas, felizmente Deus agora se alembrou
de mandar chuva presse sertão sofredor
sertão das muié séria, dos home trabaiadô.
A volta da asa branca (Luiz Gonzaga)

O amor daqui de casa
tem um sentimento forte
Que nem gemido na telha
quando sopra o vento norte
Que nem cheiro de boi morto
três dias depois da morte
Quem só conhece o conforto
não merece boa sorte...
O amor daqui de casa (Gilberto Gil)

Em belíssima composição Chico César nos presenteou com imagens marcantes.
Na sua imaginação plantou sementes de mar, grãos de navegar, que iriam transformar o seu sertão...ondas, águas..."só de imaginar eu vi..."
Mas no seu desvario, na sua busca, em nenhum lugar, nada de achar o mar que semeou!...
" Mar que semeei, perdi!..."
Nada. Nada se realizou, nenhum mar floriu em seu sertão.
Numa constatação dorida ele concluiu:
"...como o amor que eu nunca encontrei, mas existe em mim..."

Faço coro com esse poetas:

Ah! meus loucos geniais
como me consolam
as vossas fantasias!

A nossa liberdade seminua
levanta sua bandeira
e aponta novo rumo.
Há um algo a conquistar...

O quê?
Não sei. Mas basta olhar
o entorno que nos coage,
nos sufoca e nos anula.
...E ouviremos a Liberdade
a gritar: "Reage!"

sábado, 18 de abril de 2009

...Ainda João Guimarães Rosa e o seu sertão...

Mais um pouco de Guimarães Rosa...


...
e lá vamos nós acompanhando Riobaldo Tatarana, pelos grotões do sertão, lá onde "cobra desfecha desferido, dá bote...(...) onde ruindade enorme acontecia...(...) onde, sem querer, a gente rosna..."
No oco dos grotões " há coisas medonhas demais..".(... ) e aprende-se que" dor do corpo e dor da idéia marcam forte..."
Mas é lá que também se descobre:
" ...o mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas estão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior ."

E ainda:"...só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos onde os olhos."

" Vivendo se aprende; mas o que se aprende mais, é só fazer outras maiores perguntas..."

Lá, nas securas nordestinas , Tatarana pode chegar à conclusão:
" Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

Qualquer pergunta de Tatarana, ele mesmo a respondia...parece-me que seu interlocutor, eternamente silencioso, estava abismado demais para se manifestar.
...E, em determinado momento, Tatarana , confiando que " qualquer saudade é uma espécie de velhice" , cisma sobre:
" Quando é que a velhice começa surgindo de dentro da mocidade..."

Ele não me perguntou, mas eu me arvoro, por autoridade própria, em responder...

Quando...

É quando a dor se entranha,
se intromete num viver,

cria raiz, sem licença,
não se considera estranha,
resiste de ir embora
sabendo ser, ali, seu porto,
ali seu ponto final?

Ou quando o branco carece
de cobrir todo o cabelo,
nevando sem dó nem pressa,
no domínio do inverno,
que traz seu manto fatal,
desconsiderando a mente,
moendo o lembrar, lentamente?

Quando as rugas se definem,
riscando um mapa ou uma teia,
marcando o rosto tristonho,
cobrando tempos vividos,
lembrando como num sonho,
rios, córregos, riachos,
outrora já percorridos?

Velhice...
Parece-me ser muito mais
que somente estes sinais
que acompanham toda gente.
A velhice chega, sim,
encobrindo a mocidade

...quando o olhar já não faz grude
com o luar...
Quando o coração já não estremece
com o amanhecer...
Quando incomoda o canto do sabiá...
Quando a justiça tanto faz de acontecer...
Quando o amanhã já não traz
o ímã de sonhar...
Quando o olhar já não procura
um outro olhar...
Quando alguém se vê cansado de viver...

Mocidade há
quando ainda se acende o olhar...
Quando a admiração é lei suprema...
Quando as mãos ainda se abrem...
Quando o coração ainda se aquece...
Quando há vontade de cantar...
Quando a fé ainda teima...
Quando o amor ainda floresce...
Quando a criança, em nós, ainda cresce!

...e aí está a minha ousadia em dialogar com o poeta...
Falta somente chamar a atenção para algo muito importante:
...A linguagem, o estilo único e inconfundível de Guimarães Rosa...
Mas isso é um enigma que o leitor tem que desvendar sozinho.
Ler este livro é uma aventura que nos leva a "achar outras verdades muito extraordinárias."

domingo, 12 de abril de 2009

Deixando de lado bobagens como "comprinhas e sorvetes " que estão longe de me definirem como pessoa, tema surgido em tolo momento de brincar com coisas sérias, vamos, nesse domingo de Páscoa, que quer dizer passagem, fazer uma passagem para algo, a meu ver, mais consistente.

Há bastante tempo venho querendo conversar com vocês sobre um ícone da nossa literatura -Grande Sertão: Veredas.
N
ão sou especialista, nem o toquei com dedos técnicos ou analíticos...
Mas o vivi com o coração e o entronizei em mim, completamente apaixonada.
Conhecia-lhe a fama. Mas guardava-o à distância, como se temesse entrar em terreno sagrado.
Até que me revesti de coragem. pé ante pé, aproximei-me.

Era um livro emprestado e, como manda a boa educação, abstive-me de romper sua virgindade... e nenhuma anotação fiz. Costumo ir fazendo intervenções, quase dialogando, com o autor ou com o tema, à medida que vou avançando na leitura...mas, como o livro não era meu, mantive-me proibida.

Não é um livro fácil.
Um romance em forma de relato.Pode-se dizer, um monólogo de alguém que encontrou um atento ouvinte ( que não emerge explicitamente) e Riobaldo Tatarana, agora fazendeiro, ex-jagunço, confiando na memória, "viaja" pelo seu próprio passado ao ritmo das lembranças não coordenadas pela coerência cronológica.

É aí que a coisa pega.
Um caleidoscópio das mais variadas cores...sombrias, ou luminosas, onde o leitor vê-se totalmente hipnotizado, tentando não perder o prumo.

"O narrador parece experimentar vários rumos, embrenha-se num atalho, marca passo, desvia-se, volta ao ponto inicial, recomeça a ação, parece fragmentar-se num labirinto de episódios desconexos." (Paulo Rónai)

Ouso dar-lhes um conselho:
Não entrem nessa caatinga plena de espinheiros, cactos, boqueirões, envolvidos numa aridez cheia de traições, demônios, friúmes, inseguranças e esperanças, não entrem sem um bordão.
Tenham consigo um lápis e vão registrando, nas margens, ao lado das expressões que lhes calaram fundo, algum comentário pessoal. Ou vocês correm o risco de ter que lê-lo sete vezes seguidas ( como eu o fiz) só para reeencontrar as pérolas que somem em 624 páginas.
Penei muito, até receber ordem do dono do livro (meu irmão), permitindo-me fazer meus registros, fazendo-me situar melhor entre as magníficas considerações de João Guimarães Rosa.

Agora, minha relação com a história de Tatarana e Diadorim possui uma certa intimidade que me dá o direito de admoestar, inconformada, a postura da protagonista.
Ah Diadorim, podia ter sido diferente... ( mas aí não haveria Grande Sertão: Veredas).


Veredas do Grande Sertão

Ah! Diadorim...
Foste intransigente demais.
Dia após dia, noite após noite, viste
a dor, a tortura, a ânsia, a loucura...
Viste o sofrer de quem te amava,
te queria, te desejava.

De quem queria te tocar
te falar
te segurar as mãos
te dizer ternuras
se aproximar o mais possível,
te servir
te acariciar
estar sempre ao teu lado
passar as mãos em teus cabelos
te fechar os olhos, te ninar...
cantar, talvez , uma canção de amigo
para que pudesses dormir ao seu abrigo,
Fazer silêncio apaixonado
para descansar este teu corpo cansado
das lutas e labutas do dia.

Olhar-te com olhar de mãe
que adora a cria.
Fazer dos braços um ninho
e do teu corpo, um passarinho.

Diadorim, foste louca
em negar tanta possibilidade.
Podias ter sido feliz.
Ter conhecido a amizade
no que ela tem de mais puro.
Deixado as almas se enlaçarem,
seguirem juntas sem temer escuro,
monstros, traições, maldades,
sem temer nem mesmo o demo...
Seguirem de tal forma iluminadas,
sendo, elas mesmas, o sol da estrada.

Ah! Diadorim,
Não há perdão para tamanho sacrifício,
Não há perdão para tanto desperdício.